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Voz de Batman defende dublagem: quando é bom, público até rejeita original

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    Voz de Batman defende dublagem: quando é bom, público até rejeita original
    O dublador Márcio Seixas trabalha no estúdio DublaMix, no Rio de Janeiro

     

“Versão brasileira Herbert Richers”. Era com essa frase que começava a maioria dos filmes dublados no país nas décadas de 1980 e 1990. Com a morte do fundador do estúdio carioca, em 2009, a empresa foi à falência e leiloada para pagar dívidas trabalhistas e impostos. Mas o dono daquela voz marcante, o mineiro radicado no Rio Márcio Seixas, migrou para o Cinevideo e continua na ativa aos 71 anos. Responsável por dar vida em português ao agente 007 em 16 longas, Seixas está na profissão há 42 anos e segue dublando os desenhos do Batman.

Defensor da profissão, Seixas gravou todas as chamadas e locuções usadas no tapete vermelho e nas premiações do Palácio dos Festivais do Festival de Gramado e foi à cidade gaúcha para uma palestra em que tentou combater o preconceito contra a dublagem.

“Falta trazer a dublagem para a discussão, muita gente diz que não gosta, mas não conhece o processo, como ela é feita. Essa é uma chance de explicar muitas coisas, trocar ideias. Parece que dá status dizer: ‘Eu não suporto filme dublado!’. Mas, quando essa pessoa era criança, via todos os desenhos dublados e hoje coloca os filhos para ver”, aponta.

Segundo ele, a interpretação de alguns colegas é tão extraordinária que o público muitas vezes se nega a ver o original. “É o caso do Homer Simpson, do Kojak e de toda a turma do Chaves. O choro do Kiko, o ‘Ninguém tem paciência comigo’, aquilo é um fenômeno de criação e criatividade, um show de sincronismo, dinâmica, postura vocal. É um modelo para todos nós”, elogia.

Um exemplo disso foi o que aconteceu com a sexta temporada de “Game of Thrones”: os fãs protestaram quando a HBO trocou os dubladores da série após cinco anos e exigiram a volta das vozes anteriores.

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Seixas cita outro problema que contribui para o preconceito. “São poucos os profissionais que traduzem os filmes já com um texto adequado à dublagem. Aí sai muita besteira no ar, e os espectadores torcem o nariz. É preciso adaptar tudo para a nossa realidade e prosódia [musicalidade da fala]. Antes de dublar, eu mexo nos textos, tiro vícios de expressão, bobagens. Jamais falaria algo do tipo num filme de faroeste: ‘Seu maldito castor desdentado das pradarias ressequidas do Wyoming. Mudo para algo mais compreensível pelo nosso público”, afirma.

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Batman

Entre seus muitos trabalhos, um pelo qual Seixas tem muito carinho é a voz de Batman nas animações do herói. “O Batman foi um marco na minha carreira, até hoje está em todas as mídias, virou franquia. Atualmente, gravo a ‘Liga da Justiça’, são historinhas curtas, gosto muito. E recebo um carinho enorme dos fãs”, revela. Na semana passada, Seixas dublou o norte-americano Adam West, 87, protagonista da série clássica de TV dos anos 1960. “Foi uma edição especial [em animação] com os atores que estão vivos, ainda não sei onde ou quando vai passar”, conta.

Arquivo Pessoal

Voz de Batman defende dublagem: quando é bom, público até rejeita original
Além de dar voz ao Homem-Morcego, o dublador Márcio Seixas também já “virou” o Batman

Segundo o dublador, que tem um timbre grave e imponente, o Homem-Morcego é o único personagem em que ele altera seu tom de voz. “Sempre ouço os originais, em inglês, e procuro ver a entonação e ficar dentro da emoção dos personagens. O Batman tem um jeito reservado, tímido, sempre muito quieto, admiro isso”, diz, destacando que é o seu super-herói favorito.

Além dos desenhos, Seixas já dublou dois personagens em filmes do Batman. Em “Batman: O Retorno” (1992), de Tim Burton, fez a voz de Christopher Walken, que vive o poderoso magnata Max Shreck. Já em “Batman Begins” (2005), o primeiro da trilogia do diretor Christopher Nolan, ele “era” o mordomo de Bruce Wayne, Alfred Pennyworth, vivido por Michael Caine.

Bond, James Bond

Além de Batman, o dublador já fez as vozes de Clint Eastwood e Morgan Freeman, personagens da Disney –Mickey, Donald, Pateta, Ursinho Pooh, Senhor Incrível e muitos outros– e, no outro extremo, emprestou a voz para o programa “mundo cão” “Linha Direta”, que passou na TV Globo entre 1999 e 2007, em que também fez uma participação especial como ator no episódio “Edifício Joelma”, em 2005.

Mas, além do Homem-Morcego, Seixas se orgulha meso de ter dublado 16 dos 24 filmes de James Bond, o agente secreto mais famoso de todos os tempos. De “007 Contra o Satânico Dr. No” (1962), de Terence Young, a “007 – Permissão para Matar” (1989), de John Glen, ele participou de todos. Sempre com a mesma voz, foi responsável pela versão brasileira das falas de Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore e Timothy Dalton – só não pegou as fases de Pierce Brosnan (1995-2002) e Daniel Craig (2006 até agora).

“A voz só mudou um pouco com o Timothy Dalton, ficou mais séria, sem tanta ironia nas falas. Isso porque ele era um tremendo ator de teatro, tinha outro estilo. Mas 007 é para ser mais leve, divertir, tem cenas de ação maravilhosas”, avalia. O dublador acredita que Sean Connery, seu Bond preferido “disparado”, salvou a franquia. “Ele nasceu para aquele papel, era muito mais convincente, dava gosto de vê-lo na tela, a maneira como ele olhava, irônico com tudo”, destaca. Seixas chegou a dar voz ao ator britânico em outros dois filmes, como “O Curandeiro da Selva” (1992), de John McTiernan e com José Wilker no elenco, e “A Liga Extraordinária” (2003), de Stephen Norrington.

Seu filme favorito do sedutor agente britânico é “Moscou contra 007” (1963), de Terence Young. O dublador diz que adoraria encontrar o ídolo um dia, mas o mais próximo que já chegou disso foi através de um garçom que o atendeu em um restaurante na França. “Ele me contou que o Sean Connery é simpático e brincalhão. Também gostaria muito de ter conhecido o ator James Garner, que fez a série ‘Arquivo Confidencial’ nos anos 1970 [e morreu em 2014]. Quando eu o dublei pela primeira vez, minha carreira deslanchou. Queria tê-lo agradecido por mudar a minha vida. Há muitos anos, conheci a maquiadora dele, e ela disse que daria o recado”, conta.

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