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“Série é nobre como cinema”, diz diretor de Narcos e O Lobo Atrás da Porta

Lançado há mais de um ano nos cinemas brasileiros, o filme “O Lobo Atrás da Porta” foi premiado no último dia 1º em sete categorias no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Além do reconhecimento nacional, o longa-metragem, primeiro do cineasta Fernando Coimbra, também fez carreira internacional. O reconhecimento obtido em 2013, no festival de San Sebastián, na Espanha, abriu portas e o diretor foi convidado para dirigir dois episódios da série “Narcos”.

O cineasta de 38 anos, fez uma avaliação de sua experiência em uma produção do Netflix, e comemorou a repercussão que a história sobre Pablo Escobar, cuja segunda temporada já foi anunciada, gerou desde que estreou em 28 de agosto. “Hoje você tem séries muito mais criativas do que filmes. Nos Estados Unidos, as séries já são mais ousadas. No Brasil estão crescendo muito por conta da lei que obriga as TVs a exibirem conteúdo nacional. Antes não tinha uma cultura de série aqui, mas tem uma demanda grande, o público está vendo e é uma baita forma [de contar histórias], nobre como o cinema”, avalia.

"Série é nobre como cinema", diz diretor de Narcos e O Lobo Atrás da Porta
Fernando Coimbra (centro) dirige Wagner Moura e Gabriela De La Garza em “Narcos”

Responsável pela direção dos episódios 7 (Chorarás Lágrimas de Sangue) e 8 (A Grande Mentira) de “Narcos”, Coimbra conta que tinha uma cobrança por fazer um trabalho muito bom depois de “O Lobo Atrás da Porta”. “Queria fazer algo incrível, que tivesse uma força própria. É duro fazer algo depois de ‘O Lobo’, tem uma expectativa, pode ser uma grande decepção”, afirma ele, que em 2016 estreia outra série, “O Homem da Sua Vida”, na HBO.

Coimbra acompanhou os comentários e críticas sobre “Narcos” e classifica a discussão em torno do espanhol de Wagner Moura como “uma coisa muito de rede social, que acabou parando nos jornais”. Moura, que não falava espanhol quando foi convidado para viver Escobar, se mudou para Medellín e aprendeu o idioma meses antes de começar as gravações. Algumas críticas chegaram a afirmar que o modo como o ator se expressa é o ponto fraco da série. O cineasta afirma que a equipe já esperava por uma repercussão. “Se fosse um argentino fazendo o Pelé, iam falar também”, diz.

“Sabíamos que as pessoas iam prestar atenção nisso, mas a aposta era na atuação do Wagner. Ele se dedicou incrivelmente, aprendeu o mais rápido que pode, intensificou o sotaque. Ele precisaria morar 10 anos lá para ser perfeito. Mas aí você lembra do Al Pacino fazendo ‘Scarface’ com sotaque espanholado que não é perfeito. Você vê milhões de coisas no cinema assim. No Brasil tem o filme ‘Olga’, com as pessoas falando português na Rússia. São liberdades que a gente tem que dar para o ator, ele vai entrar no personagem de outras maneiras e quem quiser entrar na história vai abstrair isso [o idioma]. Mas sempre vai ter os que vão implicar, como tem os que vão implicar com erro de continuidade”, defende o cineasta, que também teve dificuldades no set para se entender com a equipe internacional. “Falava um portunhol safado e saí de lá falando bem melhor”, conta.

Acostumado a dirigir os próprios roteiros, Coimbra conta que precisou “estudar mais” para realizar as cenas de “Narcos”. “Quando é você quem escreve, você sabe completamente o que quer dizer em cada cena. Quando você dirige uma coisa que outra pessoa escreveu, você tem que olhar e entender, discutir com o roteirista o que a cena está fazendo ali, mas uma hora você se apropria da cena como se você mesmo estivesse escrito e vai embora”, explica.

ALERTA DE SPOILER: NÃO LEIA SE NÃO QUISER SABER DETALHES DE “NARCOS”

O cineasta elege a morte de Gustavo Gaviria (Juan Pablo Raba) como a sequência mais difícil de filmar em “Narcos”. Primo, sócio e confidente de Pablo Escobar (Wagner Moura), o traficante é capturado e morto a socos por policias colombianos depois de se recusar a revelar o paradeiro do “patrón”. Segundo Coimbra, as gravações foram longas e contaram com muito improviso dos atores. “Foi uma cena muito dura e muito demorada porque tinha muita maquiagem envolvida. O Juan Pablo manteve a energia e na hora eu o deixei mais solto para a coisa acontecer de verdade. Ele era o segundo cara, o parceiro do Pablo e estava se despedindo da série. Tinha essa coisa de que todo mundo gostava dele, além de ser um baita ator, um cara incrível de se trabalhar junto. Tinha uma coisa sentida, essa coisa de ‘não vai ter mais o Gustavo’. Ele se entregou e a cena foi muito crua”, lembra.

“Não quero me limitar ao gênero”

Assim como “O Lobo Atrás da Porta” e “Narcos”, o projeto em que Coimbra trabalha atualmente, o longa-metragem “Os Enforcados”, também tem um crime como pano de fundo. O cineasta, no entanto, afirma que não pensa só em fazer filmes de suspense, ação e violência. “Sempre me vejo fazendo coisas em que os personagens estarão em situações radicais. Também acho que o cinema exerce uma magia nas pessoas. Essas histórias que são fora da rotina fascinam porque você é capaz de viver uma coisa que não seria capaz de viver. Isso atrai as pessoas”, analisa.

"Série é nobre como cinema", diz diretor de Narcos e O Lobo Atrás da Porta
Equipe de filmagens grava cena de Wagner Moura e Paulina Garcia em “Narcos”

Ambientado no Rio de Janeiro, “Os Enforcados” vai narrar um conflito de classes entre o Bairro da Tijuca e a Zona Sul. “Envolve o universo do bicho, mas os personagens estão envolvidos em outras esferas de corrupção. É uma história de ganância e de um casal, de uma confiança que vai se desfazendo no momento em que esses personagens cometem um crime juntos”, adianta Coimbra, que está fazendo mudanças no roteiro atualmente. “Fui para um laboratório de roteiro em Sundance e tive uma consultoria de roteiristas maravilhosos, agora estou reescrevendo a partir dos conselhos deles”, conta.

Feliz com os prêmios conquistados por “O Lobo Atrás da Porta” no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, Coimbra acredita que a indústria cinematográfica brasileira vive seu melhor momento desde a retomada, mas ainda tem uma guerra a ser vencida.

“Produzir um filme aqui não é um problema, claro que não é fácil, mas é possível. Agora conseguir fazer o filme ser visto, chegar no cinema, ter espaço nas salas é uma batalha gigante. Tem poucas salas, muitos filmes, mais filmes americanos e quando não é um blockbuster brasileiro, fica limitado”, diz.

Por outro lado, o cineasta, que viu “O Lobo Atrás da Porta” ser exibido em mais de 20 países, acredita que investir no mercado internacional é uma opção. “Às vezes o filme tem um desempenho médio no Brasil, mas vai bem internacionalmente. Muitos produtores vêm conversar comigo sobre fazer um filme que não é um blockbuster, mas que dialoga com o mundo todo. [Vender para outros países] é também é um jeito de o cinema sobreviver”, conclui.

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