Aos 66 anos, Lúcia Murat reflete papel de idosa em nova onda feminista

A diretora Lúcia Murat, conhecida por abordar a ditadura em seus filmes, se volta agora à velhice. A motivação é bem simples, segundo ela: a chegada aos 66 anos. “Em Três Atos”, em cartaz nos cinemas, traz Nathalia Timberg e Andréa Beltrão interpretando textos de Simone de Beauvoir que falam do medo da morte, da relação com a mãe, do corpo feminino, das paixões. Em meio à leitura, duas bailarinas, uma jovem (Maria Alice Poppe) e outra idosa (Angel Vianna) encenam uma dança contemporânea.

Presa em 1971 por fazer parte do movimento estudantil, Murat comemora a nova eclosão feminista que o Brasil viveu este ano e reflete sobre a mulher idosa. “Quando eu estava no movimento estudantil, a questão da mulher sempre foi discutida. Fui à marcha das mulheres no Rio recentemente. Fico emocionada porque nunca tivemos um movimento forte com mulheres na rua, como a Europa teve nos anos 1970”, diz ela.

As discussões sobre o assunto foram muito além das ruas. Foram parar até no Enem deste ano, justamente com uma questão que trazia um trecho de um texto de Beauvoir. “Outro dia uma repórter me perguntou: ‘Por que Simone de Beauvoir em seu filme?’. Respondi que, há dois anos, já sabia que ia ser questão do Enem”, brinca a diretora. “Quando eu era estudante, discutir Simone de Beauvoir era uma coisa da elite. Hoje está numa prova para mais de 5 milhões de candidatos. É uma coisa fantástica”.

“Uma coisa curiosa é que o enterro de Simone [em 1986] foi como a de uma artista pop. As ruas de Paris ficaram tomadas. Foi no bojo do movimento. Nos anos 1990 isso deu uma caída, feminismo virou uma coisa de mulher chata, feia e mal-amada. É interessante ressurgir agora e de uma maneira mais radical, incluindo outras questões, como os LGBT”, ela diz.

Divulgação

Aos 66 anos, Lúcia Murat reflete papel de idosa em nova onda feminista

Lúcia Murat no set de “Em Três Atos”

Aos 66 anos, Lúcia Murat reflete papel de idosa em nova onda feminista

Mulher idosa na explosão feminista

Toda essa explosão é acompanhada por Murat, que também a enxerga sob esse novo ponto de vista. “Acompanhei as marchas com certa dificuldade, já tenho certa idade. Descobri que é melhor chegar no final e ficar parada”. Parte do movimento feminista, ela reflete, se deu pela internet, instrumento que ainda deixa muitas mulheres idosas de fora. “E é difícil as mulheres idosas passarem a usar a internet. É distante da vida delas, da história delas. E o que permitiu essa explosão foi justamente essa ferramenta”.

No filme, em uma das cenas, um homem de mais de 90 anos pinta o rosto de palhaço, enquanto Timberg narra: “As pessoas acham que a velhice traz serenidade, que os velhos não têm mais paixão, que vivem em calma. Isso é completamente falso. Quando a gente se relaciona com os velhos, vê que são pessoas que guardam todas as paixões da juventude, mas de uma maneira muito trágica porque essas paixões não conseguem mais ser vividas”.

Para ela, homens e mulheres idosos tendem a ficar excluídos da sociedade, mas para a mulher isso é ainda mais latente. “Na mulher, isso é mais exacerbado porque dela sempre se exigiu mais beleza, mais juventude”.

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