O que mais vimos na China foi demolição, diz Walter Salles sobre novo filme

Nas primeiras cenas do documentário “Jia Zhang-ke, um Homem de Fenyang”, que estreia nesta quinta (3), o cineasta chinês mostra que prefere ser visto apenas como “um cara”. Sempre sorrindo e disponível, o diretor é retratado pelo olhar do brasileiro Walter Salles, em uma mistura de análise geográfica e memória que cria um retrato dos efeitos da globalização na China e na vida de seus moradores.

Ao UOL, Salles disse que “os filmes [de Jia] falam de temas muito pessoais, da passagem da adolescência para a idade adulta, como acontece em ‘Plataforma’. Ao mesmo tempo, os personagens e histórias refletem algo maior, a crise de identidade de toda uma sociedade.”

Para o brasileiro, essa crise ficou evidente ao acompanhar Zhang-ke e captar os efeitos da globalização na China, as mudanças em seu cenários urbanos, abandonados ou substituídos, e como elas influenciam a vida de pessoas comuns, percepção recorrente nos filmes do chinês. “A palavra que mais vimos na China foi ‘demolição'”, comenta. “Muitas vezes, procuramos os cenários dos filmes de Jia e ele mesmo não os reencontrava. Haviam sumido com a especulação imobiliária que tomou conta da China. De certa forma, Jia registrou a memória de um país que não mais será. A memória de uma terra em transe.”

Ao mesmo tempo em que o documentário mostra uma atualização nos cenários, a intimidade de Jia vem à tona em conversas com uma antiga vizinha e nas lágrimas de remorso pelos momentos de silêncio perante o falecido pai. Sua mulher, atriz no elenco de “Plataforma”, também é uma das entrevistadas, mas é preservada de forma que a associação entre os dois seja feita principalmente através do cinema. Salles explica que, “na cultura chinesa, a divisão entre o público e o privado se expressa de forma muitas vezes oposta à do mundo ocidental. Fizemos questão de respeitar essa diferença, e de não sermos invasivos.”

“O que procuramos foi entender o que levou Jia a contar as histórias de seus filmes –as que ele elegeu, e não outras”, explica. “Como a maioria de sua obra foi inspirada pelos fatos que aconteceram a seu redor, na sua cidade natal de Fenyang, foi fundamental voltar com ele para lá e ouvir as lembranças de seus amigos e familiares que irrigam seus filmes. Novamente, a questão da memória é central na filmografia de Jia Zhang-ke. A memória afetiva de seus amigos, e a memória de uma cultura milenar cujas transformações Jia registra.”

Xiao Qinan/Divulgação

O que mais vimos na China foi demolição, diz Walter Salles sobre novo filme

O cineasta brasileiro Walter Salles e o diretor chinês Jia Zhang-ke

O que mais vimos na China foi demolição, diz Walter Salles sobre novo filme

Encontro em Berlim

Cercado por uma plateia de cinéfilos, o brasileiro apresentou o documentário pela primeira vez em fevereiro deste ano, no lugar onde sua história com Jia começou, o Festival de Cinema de Berlim. Em 1998, Salles concorria ao Urso de Ouro com “Central do Brasil” e o chinês com “Batedores de Carteira”, também retratado no documentário, em um momento que ambos dizem ter sido marcante. Para Salles, é como se um ciclo se fechasse.

A faísca entre a dupla só voltou a surgir em 2007, quando, estimulados por um debate na Mostra de Cinema de São Paulo, receberam a sugestão do crítico Leon Cakoff de estender a discussão para um livro e documentário, uma parceria com o jornalista francês Jean-Michel Frodon, estudioso do cinema oriental e da cinematografia de Zhang-ke.

Seis anos depois, Salles e sua equipe desembarcaram em Shanxi, província de Fenyang, no norte da China, cidade com dialeto próprio, onde Jia nasceu. A ideia era acompanhar os passos do diretor em um registro geográfico atualizado de sua primeira trilogia, famosa por “Plataforma” e “Batedor de Carteiras”.

Fã assumido dos filmes do chinês, o brasileiro diz se inspirar na história do diretor. “Quando eu era adolescente, o cinema me permitiu entender que o mundo era bem mais amplo e complexo do que eu imaginava. Uma forma de viver vidas que você jamais conheceria, de desvendar o mundo”, comenta. “Como realizador, é essa possibilidade que continuo buscando no cinema. É o que me levou para o norte da China, perto da fronteira com a Mongólia, para fazer o documentário sobre Jia Zhang-ke”.

Ícone do cinema chinês

Zhang-ke é considerado o diretor ícone da Sexta Geração de realizadores chineses, um movimento cinematográfico importante no país, onde é famoso por sua postura independente e por filmes com personagens que são verdadeiros figurantes da vida na cidade. Sem a possibilidade de serem assistidos na própria China, seus filmes foram encontrados pelo público graças à pirataria, mesmo após ganharem reconhecimento em festivais como Cannes e Veneza.

Censurado pelo governo, apenas em 2004 Jia foi autorizado a filmar a sequência da trilogia “O Mundo”.

Apesar da repressão no país ser acirrada, Salles comenta que não encontrou dificuldades para filmar. “Nisso, a disponibilidade e generosidade de Jia foram fundamentais. Fomos convidados a filmar até em momentos difíceis para ele, como no dia em que ele soube que a exibição de ‘Um Toque de Pecado’ tinha acabado de ser suspensa.”

Questionado se o cinema deve ser político, tendo em vista a própria posição de Jia contra a ditadura do governo chinês, Walter acredita que “nenhum cineasta filmou os efeitos da globalização e as consequências brutais no homem comum como Jia Zhang-ke. Ele estava no centro do furacão, em um país que passava de uma forma de ortodoxia para outra –a do mercado. Jia conseguiu filmar o seu tempo, o nosso tempo como ninguém. E ao fazer isso, trouxe o cinema novamente para o centro do debate”.

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