Júri não comparece e diretor sai antes do final de filme de 8 h em Berlim

Assim que terminou a sessão oficial de "Hele Sa Hiwagang Hapis" – em inglês, “A Lullaby to the Sorrowful Mystery” e, em tradução livre, Uma Canção de Ninar para o Mistério Doloroso –  foi ouvida uma longa salva de palmas no Palácio da Berlinale nesta quinta-feira (18). A maioria aplaudia porque tinha achado o filme do diretor filipino Lav Diaz, que dura nada menos que oito horas, algo próximo de uma obra-prima – mas é provável que as palmas também fossem de alegria pelo fim de tão prolongado martírio.

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Assim que terminou a sessão oficial de “Hele Sa Hiwagang Hapis” – em inglês, “A Lullaby to the Sorrowful Mystery” e, em tradução livre, Uma Canção de Ninar para o Mistério Doloroso –  foi ouvida uma longa salva de palmas no Palácio da Berlinale nesta quinta-feira (18). A maioria aplaudia porque tinha achado o filme do diretor filipino Lav Diaz, que dura nada menos que oito horas, algo próximo de uma obra-prima – mas é provável que as palmas também fossem de alegria pelo fim de tão prolongado martírio.

Eu também aplaudi, e exatamente por esses dois motivos. O filme narra a história de um grupo de mulheres que sai em uma floresta em busca dos líderes da revolucão filipina contra os colonizadores espanhóis, no fim do século 19, que estão desaparecidos. As tomadas são longuíssimas e há muitos silêncios. Obras assim podem muitas vezes resultar em uma penosa experiência na sala escura. O que imaginar, então, de uma com oito horas? (na verdade foram nove, porque uma delas foi de intervalo para almoco entre as duas metades).

Minha ideia de reportagem era assistir ao filme e, na sala, reparar nas reações dos membros do júri: ver quantas vezes Meryl Streep bocejava, contar quantas foram as idas de Clive Owen ao banheiro, ver se alguém chorava etc. Mas bastou eu entrar na sala e veio a decepção: “Os jurados já viram, acho até que antes de o festival comecar”, disse uma das funcionárias que orientam o público na sala. Fui checar com assessoria do evento (confesso aqui uma heresia: mandei um e-mail por celular, no meio do filme), que respondeu que o júri de fato já havia visto o longa. Quando e onde? Isso o Festival se recusou a dizer.

Na fila reservada aos jurados, quem se sentou foi o próprio cineasta Lav Diaz e atores de seu filme. A plateia era mista entre imprensa e o grande público. Estava praticamente lotada. Pouco antes de a sessão comecar, perguntei à sorridente mulher sentada ao meu lado se o café que ela bebia era para aguentar a sessão acordada. “É sim! Eu preciso ver o filme até o final, sou uma das intérpretes que ajudarão a equipe nas entrevistas depois”, ela explicou. “Mas é provável que dê umas saídas para esticar as pernas.”

Primeiras duas horas: onde os fracos não têm vez
A sessão comecou e, 18 minutos depois, a primeira pessoa deixou a sala. Aos poucos, o número foi aumentando, mas a maior parte voltava – possivelmente iam se alongar, tomar uma brisa do lado de fora. Alguns amigos jornalistas confessaram que saíram para fazer entrevistas e voltaram no meio do filme (e disseram não ter perdido quase nada da história). A primeira metade teve um entra e sai considerável – eu mesmo saí uma vez (lá pela segunda hora, para ir ao banheiro).

Apesar do ritmo lento na tela, o filme manteve meu interesse nas duas primeiras horas. A partir daí, comecei a sofrer. Um jornalista italiano ao meu lado deu várias “pescadas” nesse meio tempo. A menina na frente não saía do Facebook. Faltando uns 30 minutos para a primeira parte acabar, a intérprete ao meu lado saiu – e não voltou mais. Minutos depois, levantei e fui para o fundo da sala e fiquei de pé, em um esforco hercúleo para não pregar os olhos. Quando estava muito perto disso, fui salvo pelas luzes: acabava ali a primeira metade.

Saí correndo para comer alguma coisa, e no caminho, vi repórteres entrevistando pessoas sobre o que tinham achado dessa primeira fase da “empreitada”. Eu indaguei o mesmo a um jornalista alemão, que tomou a minha pergunta quase que como um insulto: “O que eu achei? Fan-tás-ti-co!”, disse, com a cara fechada.

Comi um sanduíche, tomei um café e voltei correndo para a sala. Antes de entrar, por via das dúvidas, sorvi outra xícara de café: estava pronto para mais quatro horas. A sala já estava quase fechando quando, de repente, a intérprete reapareceu, sorridente: “É longo, né? Mas é um filme… especial, né?”. O italiano parece ter desistido. Quando as portas se fecharam, havia uns 20% a menos de espectadores que no comecinho da anterior.

Curiosamente, a segunda metade teve bem menos entra e sai e desistências. Como em uma espécie de “lei da selva”, parece que só os mais fortes voltaram para a segunda “temporada”. Eu mesmo, com uma ajudinha da cafeína, aguentei as quatro horas sem sono e nem sair da sala. Meu joelho e minhas costas não doeram (o que é raro em filmes com mais de duas horas). Acho que me acostumei.

Cortado pela metade, seria uma obra-prima
Com o fim da sessão, reparei que a intérprete já não estava mais em seu lugar (nao a vi sair). O diretor e sua equipe, ao que parece, também não ficaram para a segunda etapa. Na saída, mais repórteres entrevistando as pessoas: “O que achou do filme?”. Repeti a mesma pergunta a um jornalista inglês, que me disse: “É sensacional! É uma besteira essa história de ficar pensando em duracão de filme. Ele aborda questões muito mais sérias, faz um panorama de um país”.

Já uma repórter alemã não tinha tanta certeza sobre as próprias impressões. “Não quero falar nada… Preciso de tempo para absorver o filme, é muito denso… Foi muito tempo. Não consigo falar nada”. No geral, as pessoas elogiavam, mas procuravam evitar entrar em detalhes.

O que eu achei? Para mim seria possível enxugar muita coisa e reduzir o filme a quatro, talvez até três horas, sem diminuir suas qualidades. Claro, a proposta de percepcão temporal de Diaz se perderia, mas o filme que sobrasse, esse, sim, teria tudo para ser uma real obra-prima. O cineasta russo Andrei Tarkovski (que adorava um filme comprido) dizia que uma das vantagens de tomadas longas é que permitem que o espectador reflita sobre o significado delas enquanto estão acontecendo. Isso se aplica com perfeicão ao filme de Diaz – o problema é que o público tem até tempo “demais” para refletir, e com isso, no meio de algum plano-sequência interminável, pode se pegar pensando na temperatura que deve estar lá fora, no que vai jantar logo mais, talvez até na morte da bezerra…

Mas o filme é de fato “denso” (como disse a alemã). Fala de vários temas importantes, como o pacifismo, a fé, a culpa, a perseveranca, o senso de justica, o patriotismo… E da importância de as novas gerações se empenharem em mudar o futuro de um mundo que causa tanto sofrimento. É um filme sem dúvida muito bonito. No final das contas, eu me senti duplamente feliz com a minha experiência de oito horas na sala escura. Primeiro, por ter tido a chance de assistir a uma obra tão “especial” (como diria a intérprete), ainda mais em sua première. Segundo, pelo fato de, agora que eu já assisti, não precisar nunca mais nesta vida encarar as mesmas oitos horas pela frente.

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