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Estreia da HBO, “Magnífica 70” renova discussões sobre a ditadura

Em meio a pedidos pela volta da ditadura militar, regime que vigorou no Brasil entre os anos de 1964 e 1985, “Magnífica 70”, nova aposta nacional da HBO, resolveu resgatar esse período – tão distante para alguns – para contar a história do censor Vicente (Marcos Winter), que se vê fascinado por Dora (Simone Spoladore), protagonista de um dos filmes vetados por ele. O governo comandado pela junta militar pode não estar à frente da história, que estreia neste domingo (24), mas os atores da trama e o diretor Claudio Torres acreditam que ela pode ajudar a suscitar discussões na sociedade.

“Acho que essa coisa de gente pedindo a volta dos militares é ridícula”, avalia Torres. “Acho que é ou gente que esclerosou e esqueceu, ou gente ignorante que não viveu [o período], não sabe o que está pedindo. E esse contexto da tentativa de o Estado querer controlar o que é dito, parece que é algo que o governo do PT [Partido dos Trabalhadores] tenta fazer há algum tempo. Quando as duas pontas se juntam, vemos um momento que é terrível para o Brasil, mas bom para a série provocar discussões. O que é bonito é que ela gera discussões assim. Ela tem no DNA essa discussão: faz bem proibir?”

Divulgação

Estreia da HBO, "Magnífica 70" renova discussões sobre a ditadura

Em “Magnífica 70”, Vicente é um censor que acaba se envolvendo com o universo da Boca do Lix

Estreia da HBO, "Magnífica 70" renova discussões sobre a ditadura

Para o protagonista Marcos Winter, a história destaca a repressão individual que surge no contexto de uma repressão imposta pelo governo – e como isso faz as pessoas usarem máscaras. O próprio Vicente, por exemplo, é o típico “homem de bem” que tem relações mornas com a mulher só para cumprir o objetivo de ter filhos, mas não resiste ao fascínio que a sensual figura de Dora exerce sobre ele.

“Quando você vai vivendo a realidade de cada um deles, vai vendo o que a ditadura faz, com que cada um deles tenha uma máscara. É uma analogia imediata. Você tira a liberdade de uma nação e o indivíduo tira a liberdade de si mesmo, de outrem, e usa seu poder para isso. Cada um de nós que está ali tem uma ditadura particular, censurando a gente, ocupando a gente e a partir daí criando duplas personalidades”, avalia o ator.

Vivências na ditadura
Para construir seus personagens, os atores de “Magnífica 70” partiram de suas próprias experiências com o conturbado período histórico. Nascida em 1978, Simone Spoladore via a ditadura como algo mais distante na sua juventude, mas acredita que a sociedade ainda tenha muitos resquícios dela.

“Parecia que tinha sido há muito mais tempo. Só consegui me conectar com a proximidade desse período quando comecei a fazer os filmes que falavam sobre ele. Nesse momento que comecei a ver o quanto a gente era influenciado por isso e ainda sinto isso. Acho que a gente sente a repressão, um medo de se expressar, um medo de se falar o que pensa. Tudo isso ronda o nosso cotidiano.”

Criança no início da idade escolar no ano em que se passa a série [1973], Adriano Garib, que dá vida ao produtor Manolo, lembra que o clima de ditadura era muito visível nas relações – e acredita que é importante resgatar o contexto da ditadura justamente por ela parecer tão distante para algumas pessoas.

Acho que a gente sente a repressão, um medo de se expressar, um medo de se falar o que pensa. Simone Spoladore, sobre a influência que a ditadura ainda exerce na sociedade

Estreia da HBO, "Magnífica 70" renova discussões sobre a ditadura

“Parece que foi há cem anos, mas é uma historia recente. Alguém levantou a questão de ter gente pedindo a volta da ditadura, e de fato a gente precisava explicar do que se trata. Quando comecei a estudar na universidade, já era a época das ‘Diretas Já’. Então a gente sabe da onde saiu e pra onde foi parar.”

Definindo-se como “fruto dessa época”, Marcos Winter conta que sentiu na pele o clima do regime militar durante a juventude passada no bairro da Penha, na zona leste de São Paulo. “A gente sofria as consequências: não podia ficar na esquina, não podia sair de casa, era medo de tudo – mas o moleque podia trabalhar. Havia essa dicotomia. E não tinha a liberdade. Eu fui criado pela minha mãe de uma forma ditatorial. Eu apanhei para caramba, eu apanhei muito. falo pra minha mãe: ‘se você tivesse me criado hoje, você estava na cadeia'”.

Conservadorismo na TV?
A onda conservadora que tem chegado à televisão, como o recente boicote à “Babilônia”, não preocupa a equipe da série. “Nós estamos na direção completamente contrária. A gente faz produção para gente grande”, afirmou o vice-presidente corporativo de produções originais da HBO na América Latina, Roberto Ríos.

Torres, que é filho de Fernanda Montenegro, a Estela de “Babilônia”, acredita que as reações à trama se devam mais a uma questão de aceitação do que a uma forma de censura – e não necessariamente afetam outras produções.

“Acho que em ‘Babilônia’ não houve questão de censura, mas de preferência. Ali é um diálogo democrático aberto e as pessoas que assistem à novela das 21h não embarcaram naquilo. Agora, o problema é alguém te impedir de fazer aquele filme. O problema é alguém dizer ‘essa novela não pode passar nesse horário porque acho que ela não é adequada para isso’. Acho que o perigo de hoje é quando se fala que há uma tendência de querer restringir o que o jornalismo pode ou não colocar. Aí já estamos falando de interferência do Estado na liberdade de expressão”.

Da opinião de que “Magnífica 70” talvez não fosse tão bem-sucedida em sua temática se não fosse uma série fechada em um canal pago, Marcos Winter acredita que a discussão em torno dos beijos homossexuais – principal reclamação contra “Babilônia” – é cercada por hipocrisia.

“A Rede Globo botou muita gente pelada, botou muito peito, muita bunda. Vamos parar de ser hipócritas. Com a repressão da época [da ditadura], a nudez era uma forma de não só você chamar público, como você desviar da anta da censura, porque você botava um peitinho, uma bundinha, e até negociava com a censura e conseguia livrar o seu filme. Antigamente, nessa repressão toda, com 6, 7 anos, para você ver um peitinho, a gente ficava louco. Hoje você pode botar um peito que as pessoas não ficam chocadas com aquela imagem”.

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