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Candidato da França ao Oscar, “Elle” foi rejeitado nos EUA por ser “amoral”

por Bibi Toledo / Publicado em quarta-feira, 16 nov 2016 12:41 PM / / 419 views

Houve um momento em que Paul Verhoeven chegou a pensar que “Elle”, thriller de humor negro inspirado no livro “Oh”, do francês Philippe Djian, não iria sair do papel. O diretor holandês, conhecido por sucessos como “Robocop – O Policial do Futuro” (1987) e “Instinto Selvagem” (1992), sonhava em nomes como Nicole Kidman ou Sharon Stone no papel da protagonista, uma mulher que mantém uma relação dúbia com o seu estuprador, mas o projeto não conseguia seduzir produtores ou atrizes do cinema norte-americano, por causa de seu conteúdo “amoral”.

“Como não nos deixamos levar pela tentação de fazer um filme de vingança, não conseguíamos a simpatia de ninguém nos Estados Unidos. Acho que a ideia de uma heroína que estende a mão a um criminoso, ao invés de caçá-lo ou denunciá-lo à polícia, era inaceitável do ponto de vista moral americano”, contou Verhoeven . “Foi aí que o produtor do filme, Said Ben Said [o mesmo de ‘Aquarius’, do brasileiro Kleber Mendonça Filho], decidiu trazer a produção para a França, onde a trama do livro se passa”.

De volta ao cenário original, “Elle” ganhou a adesão de Isabelle Huppert. Uma das mais disputadas atrizes da atualidade, a francesa de 63 anos é conhecida pelo temperamento forte e pelo currículo de papéis atrevidos, como a mestra sexualmente reprimida de “A Professora de Piano” (2001), do austríaco Michael Haneke. “Ela não tem problemas com questões morais que possam ser entendidas como controversas. Isabelle é muito audaciosa, não se preocupa com o que as pessoas possam pensar dela se vier a fazer esse ou aquele tipo de papal”, elogiou o veterano diretor de 78 anos.

No filme, Isabelle interpreta Michèle Leblanc, uma executiva da indústria dos videogames, durona e pragmática, marcada por um crime cometido pelo pai em sua infância. Ela administra a empresa e as relações com o filho, o ex-marido e a melhor amiga de forma prática, sem demonstrar empatia ou emoção. Quando certa noite em casa, após ser violentamente atacada e estuprada por um homem com uma máscara de esqui, ela reage de forma inesperada: não só faz segredo sobre o ocorrido como tenta descobrir a identidade do criminoso e se aproximar dele.

Divulgação

Candidato da França ao Oscar, "Elle" foi rejeitado nos EUA por ser "amoral"
Paul Verhoeven dirige Isabelle Huppert

Um novo “Instinto Selvagem”?

O tom ácido dos diálogos, construídos pelo roteirista norte-americano David Burke, a complexidade da personagem e o desempenho magistral de Isabelle fizeram de “Elle” um dos títulos mais aguardados da temporada –não por acaso, a França o escolheu para representar o país na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. “O que eu achei interessante é que, apesar de ter razões para isso, Michèle nunca se faz de vítima do que aconteceu. Sentimento de culpa e submissão são noções que personagens femininos não conseguem se libertar facilmente”, disse a atriz ao UOL, justificando seu interesse pelo papel.

Recheado de violência sexual e situações perversas, “Elle” devolve o realizador aos tempos áureos de “Instinto Selvagem”, thriller erótico que consagrou Sharon Stone como estrela em Hollywood. Mas as semelhanças param por aí. “Costumo dizer que há uma grande diferença entre os dois filmes, por causa da atenção que ‘Elle’ dá ao contexto social no qual a protagonista vive. Em ‘Instinto Selvagem’ não há decisões morais a serem tomadas, o ambiente social é o que menos importa na história”, compara Verhoeven.

“Há de se levar em consideração também que trata-se de uma história francesa, escrita e interpretada por franceses e dirigida por um holandês. Até o compositor [da trilha sonora] é inglês. Então, ‘Elle’ é basicamente um filme europeu, tem essa sensibilidade europeia”, ressalta Verhoeven, que não põe a mão em uma produção americana desde “O Homem Sem Sombra” (2000). “Agora, com o filme pronto, e vendo o trabalho maravilhoso de Isabelle, posso dizer que ‘Elle’ resultaria em algo completamente diferente se fosse feito nos Estados Unidos”.

Parcerias de Isabelle

É a primeira vez que Isabelle trabalha com Verhoeven, mas atriz acompanha a trajetória do holandês desde o início, quando ainda dirigia longas-metragens provocadores em sua terra natal, antes de ganhar a atenção internacional com “Soldado Laranja” (1977). “Assisti a todos os trabalhos de Paul. ‘Louca Paixão’ (1973), o primeiro filme de ficção dele que vi, quando ainda estudava, é um dos meus eternos favoritos. Desde aquela época alimentei o desejo de um dia poder atuar para ele”, lembrou a atriz.

A grande dama do teatro e do cinema franceses vê semelhanças entre o estilo de Verhoeven e o de Haneke, um de seus parceiros mais constantes. “Assim como Michael, Paul é rigoroso, direto e exigente, mas fácil de lidar, o que é uma combinação ótima para um ator”, explica Isabelle, que acaba de rodar “Happy End”, o seu quarto longa com o cineasta austríaco. “É a história de uma família que vive no Norte da França, na região de Calais, que hoje abriga centenas de imigrantes ilegais. Só por isso o título já soa irônico”.

Jesus Cristo em nova versão

Desde a estreia no Festival de Cannes, em maio, “Elle” foi clamado nos diversos festivais onde foi exibido posteriormente, como Toronto (Canadá), Nova York (EUA), Londres (Inglaterra) e San Sebastían (Espanha). A imprensa estrangeira fala de um novo retorno de Verhoeven aos holofotes e, claro, aos projetos mais ambiciosos –seu último filme, “A Espiã” (2006), rodado na Holanda, não teve grande repercussão. A repercussão de “Elle” renovou o entusiasmo do diretor por um projeto anterior, também com potencial para polêmica: uma nova versão sobre a vida de Jesus Cristo.

A fonte do projeto será “Jesus of Nazareth”, livro de ensaios que Verhoeven lançou em 2011, depois de duas décadas de pesquisas. Nele não cabem milagres ou parábolas de significados obscuros, mas as façanhas de um líder político, carismático, introdutor de uma nova ética, que abraçava as contradições humanas, e por isso foi perseguido e morto. “Os romanos viam Jesus como um insurgente, que nos dias de hoje poderia ser chamado de terrorista. Foi considerado perigoso porque proclamava o Reino dos Céus como algo tangível, aqui mesmo na Terra”, resumiu Verhoeven.

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