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Animais Fantásticos e onde Habitam

por Bibi Toledo / Publicado em segunda-feira, 14 nov 2016 13:07 PM / / 398 views
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Lá se vão 19 anos desde que o primeiro livro de Harry Potter foi publicado na Inglaterra e cinco desde que o último filme foi lançado. Mas o tempo não esfriou o interesse dos fãs pelo universo criado por J.K. Rowling, e eles finalmente conhecerão mais um capítulo da saga: “Animais Fantásticos e onde Habitam”, que estreia na próxima quinta-feira (17).

Os mais ansiosos podem ficar tranquilos: dificilmente ficarão desapontados com a nova criação de Rowling, em seu primeiro roteiro cinematográfico, mesmo que estejam ausentes Harry, Hermione, Rony e outros velhos conhecidos dos fãs. Principalmente aqueles que acompanham a história do bruxinho desde o início, em 1997, e hoje já estão próximos dos 30 anos, verdadeiro público-alvo do novo filme, que também troca o trio de adolescentes protagonistas por um quarteto adulto, liderado por Newt Scamander (Eddie Redmayne), um pesquisador de criaturas mágicas –ou magizoologista.

Newt não é exatamente um novo personagem. Ele já era citado em “Harry Potter” como o autor do livro fictício “Animais Fantásticos e onde Habitam”, adotado como material didático na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, lançado por Rowling no “mundo real” em 2001.

Dos dramas às responsabilidades

O tom do filme também é mais maduro: saem os dramas da adolescência e entram as responsabilidades da vida adulta; sai o ambiente protegido e mais mágico de uma escola de bruxaria e entra o mundo real –e por vezes hostil para os bruxos– da Nova York de 1926.

Newt chega à cidade depois de uma longa viagem pelo mundo para estudar e coletar animais fantásticos. Sem querer, contribui para piorar o clima entre a comunidade mágica, que já estava apreensiva com um ser misterioso que causa destruição e ameaça expor a existência do bruxos, quando várias de suas criaturas escapam da maleta mágica onde são mantidas.

Nos Estados Unidos, por causa de perseguições vividas no passado (o famoso caso real das bruxas de Salem, em 1692, quando várias mulheres foram julgadas e executadas sob acusação de bruxaria), a comunidade mágica vive em um auto-imposto apartheid, e qualquer contato com os não-majs (humanos sem poderes, chamados de “trouxas” nos livros de Harry Potter) é expressamente proibido, o que não impede que ainda haja perseguição.

É nessa tensa relação dos bruxos norte-americanos com os não-majs que Rowling deixa transparecer os temas bem sérios que estão por trás da sua fantasia: segregação, xenofobia, preconceito e violência contra quem é diferente.

No mundo de 1926, o paralelo histórico óbvio seria o iminente crash da bolsa e o clima de intolerância que pouco depois levaria ao nazi-fascismo e à Segunda Guerra Mundial –nada tão diferente da crescente guinada conservadora no mundo, alimentada pela instabilidade econômica, pela desigualdade e pela crise de refugiados na Europa.

Junte-se a esse pano de fundo político bastante realista episódios de violência doméstica contra crianças, e temos um filme bem mais sombrio do que os de Harry Potter, o que deve agradar quem já passou da idade escolar.

Fantasia e encantamento

Apesar do subtexto mais adulto, continua sendo um mundo de fantasia e encantamento, garantidos tanto pelas cativantes criaturas mágicas quanto pela improvável amizade que surge entre Newt, o não-maj desavisado Jacob Kowalski (Dan Fogler), a funcionária do órgão governamental bruxo Porpentina Goldstein (Katherine Waterston), que caiu em desgraça e quer recuperar seu posto, e a adorável irmã dela, Queenie (Alice Sudol), frequentemente subestimada por ser bonita.

É esse quarteto que garante os momentos de leveza e humor, com uma química à altura do trio protagonista de “Harry Potter” (Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint), provando que Rowling consegue, no roteiro, criar personagens tão cativantes quanto em seus livros.

A escritora se sai bem como roteirista de primeira viagem, com uma história mais coerente do que vários dos filmes originais (como “A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta”), que muitas vezes sofriam de uma excessiva dependência dos livros.

É claro que nem tudo é perfeito e há pontas soltas e tramas paralelas que talvez só façam sentido nos próximos longas (serão cinco, no total), mas em geral o filme funciona bem sozinho, não apenas como introdução para a nova série.

Apesar de não superar os melhores longas da franquia “Harry Potter” –como “O Prisioneiro de Azkaban” (2004), dirigido por Alfonso Cuarón–, em seus melhores momentos, “Animais Fantásticos” consegue ser divertido, emocionante e até assustador, com uma trama envolvente e personagens bem construídos.

Aliás, as referências ao universo de Harry Potter são apenas suficientes para deixar os fãs animados com o que está por vir (sim, veremos Dumbledore novamente!), sem atrapalhar em nada a experiência de quem está chegando agora ao mundo criado por Rowling, que, ao que parece, ainda tem muito o que contar.

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