A Chegada: Um teste na ficção científica para diretor de novo Blade Runner

O cineasta franco-canadense Denis Villeneuve, 49, tem vivido uma montanha-russa desde que o drama "Incêndios" (2010) foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. E "A Chegada", que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (24), é mais uma curva abrupta desse percurso.

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O cineasta franco-canadense Denis Villeneuve, 49, tem vivido uma montanha-russa desde que o drama “Incêndios” (2010) foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. E “A Chegada”, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (24), é mais uma curva abrupta desse percurso.

Orçado em US$ 47 milhões e estrelado por Amy Adams e Jeremy Renner, “A Chegada” coloca a carreira de Villeneuve em um novo patamar profissional. Depois de um início de carreira assinando modestos dramas em francês, sua língua nativa, e algumas experiências em inglês (os suspenses “Os Suspeitos”, de 2013, e “Sicário: Terra de Ninguém”, de 2015), o diretor investe no terreno minado da ficção científica, um gênero pelo qual é apaixonado desde a juventude.

O próximo passo nessa direção já foi dado e é ainda mais ambicioso: “Blade Runner 2049”, a aguardada sequência do sucesso lançado em 1982, que ele está rodando na Hungria.

Divulgação

A Chegada: Um teste na ficção científica para diretor de novo Blade Runner
Amy Adams e Jeremy Renner estrela “A Chegada”, de Denis Villeneuve

Caráter internacional

Adaptação do conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang, publicado em 1998, “A Chegada” é uma versão cerebral e intimista das velhas histórias de contatos de humanos com seres extraterrestres. A trama é centrada na figura de Louise Banks (Adams), linguista convocada pelo governo norte-americano ao interior do estado de Montana, onde paira sobre o solo um dos 12 descomunais óvnis em forma de concha que chegaram à Terra. A missão da perita e de seu parceiro, o físico Ian Connely (Renner), é encontrar uma forma de comunicação com os visitantes, e descobrir seus objetivos. Ao mesmo tempo, Louise lida com conflitos íntimos.

Villeneuve não conhecia a literatura de Chiang. “Fui apresentado à história pelos produtores Dan Cohen e Dan Levine, enquanto eu procurava um projeto de ficção científica. Havia lido muitos roteiros originais e livros do gênero, mas nenhum deles me pareceu um bom material para um filme. Quando li ‘Story of Your Life’, enxerguei ali um significado importante”, contou  o diretor, que trabalhou a quatro mãos com o roteirista Eric Heisserer. “O texto de Chiang é belo, lida com um conceito quase abstrato que relaciona a linguagem com a compreensão que cada cultura tem do mundo, que é de difícil adaptação, do ponto de vista dramático”.

Na trama, à medida que Louise e Ian decodificam a língua dos aliens, espécie de moluscos de sete tentáculos que se exprimem por símbolos circulares, a paranoia militar se alastra pelo mundo. Líderes da China e da Rússia querem se antecipar a um possível ataque dos forasteiros. Nesse sentido, “A Chegada” se aproxima das parábolas políticas dos filmes de ficção científica americanos dos anos 1950, que disfarçavam o pavor da ameaça comunista com o medo do desconhecido. No contexto de hoje, o temor pode ser associado à crise dos refugiados ou aos imigrantes ilegais. “Não era nossa intenção primeira mas, dentro do cenário político atual, é um paralelo inevitável”.

Villeneuve conseguiu imprimir um caráter internacional ao projeto. “Na primeira conversa que tive com os produtores, percebi que eles tinham uma leitura americana da história criada por Chiang, e que estava apoiada na figura de um herói local. O que fiz foi trazer o resto do mundo para o filme”, explicou. “Para mim, era importante que as espaçonaves aterrissassem também em países que não tivessem um significado geopolítico especial, como Serra Leoa e o Sudão, ou na América do Sul, e que reunisse cientistas e línguas estrangeiros”.

Fosse dirigido por um realizador de outra nacionalidade, “A Chegada” seria um filme completamente diferente, acredita o diretor. “O Canadá é um país muito pequeno, somos menos autocentrados. Não somos um império. Na verdade, nos situamos nos subúrbios de um império [os Estados Unidos] e, portanto, estamos mais em contato com a realidade”, filosofa Villeneuve. “Chiang fala de linguagem, e de como ela interfere na interpretação do mundo. O Canadá é um país com duas línguas oficiais e, às vezes, isso funciona como uma barreira. Duas culturas que convivem durante o inverno rigoroso, mas que não falam uma com a outra. É um problema ao qual sou sensível”.

Blade Runner

Com “A Chegada”, Villeneuve dá trégua aos crimes hediondos e ambientes violentos que marcaram seus últimos filmes. “Já estive em lugares violentos, conheci pessoas que testemunharam ou sofreram atos de violência, mas nunca participei ou estive em contato direto com ela. Isso é a prova de como aprendemos sobre essas coisas através das imagens que estão cada vez mais disponíveis por aí nos dias de hoje. Essas informações ficam no nosso inconsciente, o que me permite reproduzi-las na ficção. O que faço é buscar inspiração na vida dos outros”, disse, justificando sua atração pelo tema.

Se “A Chegada” remete, basicamente, aos filmes de ficção científica dos anos 1970 e 1980, particularmente as incursões no gênero assinadas por Steven Spielberg, um “ídolo da juventude” de Villeneuve, o novo “Blade Runner” está fincado no filme original, de Ridley Scott. “É preciso abraçar e respeitar o que já está lá”, justifica o diretor. “Mas, ao mesmo tempo, ele é filtrado pela minha sensibilidade. Nunca havia trabalhado em um projeto deste tamanho. Demanda muita energia, mas estou me divertindo muito. Estou trabalhando com atores fantásticos. Ryan [Gosling] é impressionante”.

Além de Gosling, o elenco de “Blade Runner 2049” conta ainda com Jared Leto e Harrison Ford, que reprisa o papel do detetive Rick Deckard da história original, ambientada na Los Angeles de 2029. O longa-metragem tem estreia prevista para o segundo semestre de 2017. Depois de lançá-lo, Villeneuve pretende tirar merecidas férias. “O problema é que fiz muitos filmes seguidos. Preciso parar, porque preciso de oxigênio. Acho que vou dormir (risos). O processo do sonho é muito importante para a mente. Não quero voltar a fazer terapia para me livrar de neuroses”.

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