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Herdeiro da Nike está por trás de uma das animações mais elogiadas do ano

por Bibi Toledo / Publicado em sexta-feira, 14 out 2016 15:36 PM / / 471 views

“Kubo e As Cordas Mágicas” é uma das raras unanimidades elogiosas da crítica no hemisfério norte este ano. Já foi chamada de “primeira obra-prima em animação da temporada” pela revista norte-americana “Rolling Stone”. Celebrou-se tanto a qualidade da animação em 3D quanto o roteiro, que transporta para a tela as aventuras mágicas do menino japonês Kubo, em um mergulho originalíssimo no folclore nipônico.

As cordas mágicas do título são o instrumento usado por Kubo para contar narrativas ilustradas com figuras de origami subitamente dotadas de vida própria, em um dos efeitos mais bonitos da animação. Elas atenuam a dor e a melancolia do protagonista e de sua mãe, por motivos fantásticos que dão razão de ser ao filme. É, no fim, um conto de fadas oriental com personagens profundos e tenebrosos, cujo tema central é a superação da tragédia através da bondade, da amizade, da persistência e do amor.

AFP

Herdeiro da Nike está por trás de uma das animações mais elogiadas do ano
Travis Knight, o homem do estúdio Laika

O longa-metragem é a estreia na direção de Travis Knight, o comandante da Laika, estúdio-boutique de animação de Portland, no Oregon, responsável por papas finas como “Coraline” (2009), “ParaNorman” (2012) e “Os BoxsTrolls” (2014).

Além de ser o idealizador de uma das casas de animação artesanal de maior sucesso do cinema americano, Knight, 43, é também diretor da Nike, igualmente sediada em Portland. Uma das marcas mais conhecidas do planeta, ela foi criada por Phil Knight, 78, pai de Travis, justamente depois de uma viagem deste ao Japão, quando estudou modelos diferentes de se produzir e vender calçados em larga escala.

Acompanhado do pai, Travis começou a atravessar o Pacífico e a mergulhar na cultura nipônica cedo, aos 8 anos de idade. Nunca mais parou. “O filme, é, essencialmente, uma carta de amor ao Japão”.

UOL – Como “Kubo” se encaixa na trajetória da Laika, que inclui projetos como “Coraline”, parceria com Neil Gaiman?

Travis Knight – Chegamos à conclusão de que nunca havíamos feito uma animação de fantasia pura, com muita aventura, antes. E é o gênero que eu mais amo. Mamãe conta que, quando estava grávida de mim, leu “O Senhor dos Anéis” completo para meu futuro eu. E a história do “Kubo”, com samurais e elementos do folclore japonês, me tocou especialmente.

Seu pai criou a Nike depois de entrar em contato com experiências similares de fabricação e design de calçados no Japão. O impacto da cultura japonesa foi tão grande para você quanto para ele?

Sim! Vi o Japão pela primeira vez quando tinha 8 anos de idade e estava começando, curiosamente, a me apaixonar pelo universo da animação. Esta minha visão de criança, maravilhada, do país, está impressa neste meu primeiro filme. O Japão era tão diferente de tudo o que eu havia visto e ainda me lembro do meu choque com as formas, a arte, a arquitetura, a música, a culinária, o vestuário e o que eu levei para ir degustando aos poucos depois: os vídeos, os filmes, os mangás. Foi a primeira grande revelação estética que tive na vida.

Como é que seu pai for parar no Japão?

Quando tinha a Nike na cabeça, papai circulou pelos Estados Unidos atrás de ideias, mas todos acharam que ele era louco, um negócio voltado para modelos específicos para cada pessoa e relacionado ao lazer não parecia ter o menor sentido na primeira metade dos anos 1960. Ele, então, encontrou na explosão da economia japonesa do pós-guerra gente que apostou nesta ideia aparentemente arriscada. Meio século depois, revisito, com meu filme, a admiração e o respeito pela cultura japonesa que meu pai teve e foi tão central para ele criar a Nike. É como se, com “Kubo”, eu tivesse fechado um círculo.

A crítica americana entendeu “Kubo” como uma carta de amor ao Japão. Eles estão certos?

Sim. E a influência estética veio não apenas dos mestres da animação japonesa, mas também da arte, da arquitetura, da música, do mangá, do folclore e, claro, do cinema. O aspecto mais épico do filme é meu tributo a Akira Kurosawa (1910-1998).

Você comanda a Laika e é, também, diretor da Nike. Não são exatamente funções semelhantes, não?

Completamente diferentes. A Nike é uma corporação multinacional, um ícone global. A Laika um estúdio de animação pequenino, mas marrento (risos). O ponto de encontro que vejo, inclusive como uma fonte de inspiração para mim, é o desejo de não se acomodar, de fazer sempre algo diferente. Não apenas melhor, mas de fato diferente do que já fizemos antes. O mote, nos dois casos, é olhar para frente. É competitivo, é algo que talvez venha do mundo dos esportes, mas que, no caso do universo da animação, nos serve para apostar em novas tecnologias sem medo. Quase sempre dá certo (risos).

Quais foram as principais inovações para “Kubo”?

O mais complicado foi o macro, por conta da ideia estética inicial: botei na minha cabeça que iria fazer a versão para a animação stop-motion de um épico do cinema do David Lean (1908-1991), uma coisa “Lawrence da Arábia”. Iríamos recriar, no porão do estúdio, um Japão magistral igual ao que vivia na minha cabeça. Desenvolvemos novas técnicas cinematográficas, alterando o movimento das câmeras na hora de se criar a animação e aparecendo com novas técnicas de iluminação para sets enormes que, depois, foram miniatuarizados. Tivemos também, pela primeira vez, de mesclar técnicas digitais com pinturas artesanais por conta da especificidade do tema, para ser fiel à arte japonesa. Foi um trabalho minucioso de cinco anos, mas valeu cada minuto.

O Japão também foi um maná para as cenas de ação, uma novidade em relação aos filmes anteriores da Laika. Elas foram complicadas de se filmar?

Foram um quebra-cabeças. Cenas de ação pensando em artes marciais em stop-motion não se dão exatamente em um passe de mágica. Você tem as câmeras em movimento no solo enquanto os puppets estão voando. Foi uma loucura que só deu certo por conta do trabalho conjunto de animadores, que funcionaram como dublês, e da parceria com coreógrafos especializados em artes marciais.

Como foi a experiência de dirigir pela primeira vez? Quais foram suas influências diretas?

A animação japonesa é riquíssima, mas como tive de voltar ao Japão da minha infância, eu pensei muito foi em George Lucas e nas “Guerra nas Estrelas” originais. Depois, em Spielberg e “E.T., o Extraterrestre”. Lembro do impacto emocional de “E.T.”, de saber que aquilo era ficção mas, ao mesmo tempo, algo mais real do que a realidade, um retrato da vida e de temas importantes para mim naquele momento inicial da minha existência. O que eu queria era canalizar aquele poder, fazer algo que, no universo da animação, tivesse o mesmo impacto nas pessoas que “E.T.” teve em mim. Agora, pergunte a Lucas e Spielberg quem os fez fazer cinema e o que eles vão dizer? David Lean e Akira Kurosawa. E, para mim, o Japão de Kurosawa, a luz, a câmera, o enquadramento dele, foram os criadores do épico moderno no cinema. E, claro, não só a forma, mas o humanismo e existencialismo investigados por ele. E esta aí a salada de frutas que deu em “Kubo” (risos).

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