Casa do cineasta Glauber Rocha está à venda por R$ 4 milhões na Bahia

Anderson Oliveira/DivulgaçãoCasa onde nasceu o cineasta Glauber Rocha em Vitória da Conquista, na Bahia

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    Casa do cineasta Glauber Rocha está à venda por R$ 4 milhões na Bahia
    Casa onde nasceu o cineasta Glauber Rocha em Vitória da Conquista, na Bahia

     

A casa onde nasceu o cineasta Glauber Rocha, em 14 de março de 1939, está à venda na Bahia por R$ 4 milhões. Uma placa com a inscrição “vende” foi colocada esta semana na porta do imóvel, que fica em uma avenida central de Vitória da Conquista, na Bahia, onde nos últimos anos casarões antigos deram lugar a estacionamentos.

Segundo o empresário Antonio Cotinguiba, dono da imobiliária responsável pela venda, “há dois compradores interessados no terreno onde está o imóvel”. “É só o que posso afirmar: existe a possibilidade real de venda”, declarou Cotinguiba, sem dar mais detalhes. Construída com arquitetura moderna para a época, a casa tem 13 cômodos e está numa área de mil metros quadrados.

O UOL apurou que há duas alternativas para o imóvel: uma demolição para se transformar no anexo de um hospital ou um novo estacionamento, um tipo de empreendimento que tem atraído empresários e, de certa forma, contribuído para melhorar o caótico trânsito da cidade.

Divulgação

Casa do cineasta Glauber Rocha está à venda por R$ 4 milhões na Bahia
Glauber Rocha (de camisa aberta) dirige cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, em 1963

Negociações

Construída em 1938 pelo avô de Glauber, Antonio Vicente de Andrade, a casa vinha sendo negociada há um ano com a prefeitura para ser um espaço de culto as obras do cineasta e servir como um lugar de memória. Glauber foi um dos precursores no Brasil do cinema novo, movimento da década de 1960 que tinha como mote “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

Mas a falta de resposta da prefeitura, sobretudo em época de período eleitoral, fez com que a família resolvesse colocar a placa de venda. “O inventário demorou a sair porque tivemos um problema para encontrar a escritura da casa, mas ele está praticamente pronto. A gente colocou a placa de venda, já que a negociação não estava conseguindo ser concluída. Chegaram as eleições, quiseram deixar para o ano que vem. Só que para o ano que vem não dá”, disse Mauro Andrade, primo de Glauber.

A única herdeira da casa é Elizermes Andrade, tia de Glauber e mãe de Mauro. “Nunca tivemos problemas com relação à herança, o que queremos é negociar o imóvel. Nosso desejo é que ali se transforme em um local que preserve a memória de Glauber, não queremos que ele seja demolido”, completou Mauro.

Um dia após a placa de venda ser colocada na casa, Mauro disse que recebeu um telefonema por parte do prefeito Guilherme Menezes, que buscou retomar as negociações e informou que iria agendar uma reunião para a semana que vem.
“Não tem data marcada ainda, mas ao menos ele nos chamou para negociar”, disse, informando depois que pediu para tirar a placa de venda “até a negociação”.

Quase sem memória

Apesar de ser o berço de Glauber, Vitória da Conquista não possui uma local exclusiva que sirva para perpetuar as obras do cineasta. Há apenas locais que recebem o nome dele, como o teatro da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) e o Centro Cultural (municipal). Uma obra da década de 1990, em forma de pirâmide, ficou inacabada.

O único local onde ainda se pode ver filmes originais, livros, cartazes e fotos do pai do cinema novo é na Sala Glauber Rocha, um cômodo de 5m x 3m localizado dentro do Museu Regional da UESB, no centro da cidade.

Mário Bittencourt

Casa do cineasta Glauber Rocha está à venda por R$ 4 milhões na Bahia
Valquíria Fernandes na Sala Glauber Rocha

De acordo com a coordenadora do Museu Regional Valquíria Fernandes, a sala é pouco visitada e, quando ocorre, é por pessoas que vão ao museu conhecê-lo no todo e não apenas saber a respeito de Glauber. “Visitas específicas, não há, afora quando é um pesquisador ou um jornalista que busca saber sobre Glauber. Até mesmo porque a nossa sociedade não tem o conhecimento de querer saber por causa do imediatismo e das futilidades do mundo moderno”.

Valquíria avalia como negativa a possibilidade de venda do imóvel onde nasceu Glauber e lamenta o fato de na cidade não ter algo que preserve a memória do cineasta. “Na cidade não tem uma política de preservação do patrimônio, da arquitetura. Isso é muito ruim porque um povo que não tem essa coisa de valorizar o seu passado é um povo que vive à mercê das coisas superficiais, não tem identidade”.

Outro lado

A prefeitura de Vitória da Conquista informou que as negociações para a compra da casa da família de Glauber seguem “e que depende da documentação que está sendo providenciada pela família para que o Projeto de Lei referente seja enviado à Câmara Municipal”.

A ideia é propor um outro terreno no mesmo valor em troca do imóvel da família do cineasta. A prefeitura declarou que realiza “ações que referenciam o artista e a sua militância em prol do cinema”, entre eles o Dia Municipal da Cultura, instituído em 14 de março, data em que o cineasta nasceu; e a Mostra Cinema Conquista, realizada em parceria com a UESB, que exibe filmes nacionais de curta e longa-metragem e realiza atividades de formação.

Quanto aos tombamentos e política de preservação de casarões, a prefeitura informou que eles “estão condicionados à aprovação do Sistema Municipal de Cultura, que propôs a reformulação e reativação do Conselho de Cultura, cujo Projeto de Lei está aguardando aprovação da Câmara”.

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