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Diretor atualiza clássico do faroeste e compara Velho Oeste com terrorismo

por Bibi Toledo / Publicado em quinta-feira, 22 set 2016 17:56 PM / / 277 views

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Antoine Fuqua confessa: teve que pensar muito quando lhe ofereceram a direção de um novo “Sete Homens e um Destino”, refilmagem do célebre faroeste de John Sturges, de 1960, estrelado por Yul Brinner e Steve McQueen. “Pensei: ‘Sete Homens e um Destino’… quem faria um filme como esse nos dias de hoje?”, lembrou o diretor norte-americano de 50 anos durante o 73º Festival de Veneza, onde a nova versão do filme, que estreia nesta quinta-feira (22) nos cinemas brasileiros, foi exibida fora de competição.

Ainda cheio de dúvidas, Fuqua decidiu rever “Os Sete Samurais” (1954), do diretor japonês Akira Kurosawa, e que serviu de inspiração para o filme de Sturges, sobre um bando de renegados contratados para defender uma cidade do Velho Oeste de um facínora. “Aí eu disse para mim mesmo: ‘Sabe de uma coisa? Essa é uma história que vale a pena ser contada. É simples, e fala de valores como lealdade, honra, e camaradagem entre homens'”, ainda com o ar cansado da confraternização que seguiu à sessão de gala do filme, na noite anterior.

O remake de “Sete Homens e um Destino” chega aos cinemas em um momento em que o faroeste americano reaparece em novas leituras. Em Veneza, por exemplo, foram exibidos também os neo-faroeste “Brimstone”, de Martin Koolhoven, e o faroeste distópico “The Bad Batch”, de Ana Lily Amirpour. “Os faroestes nunca saem de moda porque são histórias boas e simples”, vaticina o diretor. “O que gosto no gênero é que ele não pode se esconder atrás de nada, de aviões, carros, helicópteros, de nenhum recurso sofisticado, só de seus personagens. Nada mais importa. Vamos ver o que as bilheterias dizem, o que as pessoas dizem de ‘Sete Homens e um Destino’. Mas fiz o filme com as intenções certas”.

Capitalismo e terrorismo

A questão era: como contar aquela mesma história de um jeito interessante e contemporâneo? “O roteiro [de Nic Pizzolatto, da série ‘True Detective’] era claro, falava de sete fora da lei arregimentados contra um tirano, que ofende a religião alheia, manda queimar uma igreja, mata gente no meio da rua, e deixa os corpos por lá, amontoados, para quem quiser ver. Podem chamar isso do que quiser mas, para mim, é um caso de terrorismo. Isso é capaz de mexer com o público de agora, porque ele vê esse tipo de agressão no noticiário. A diferença é que o filme se passa no Velho Oeste”, explica o diretor.

“Sete Homens e um Destino” abre com uma grande demonstração de poder de Bartholomew Bogue (interpretado por Peter Sarsgaard), um barão ganancioso que invade com seus homens a pequena cidade mineira de Rose Greek para humilhar seus moradores e tomar-lhes suas terras e riquezas. Ele representa a força do capitalismo selvagem contra os pequenos empreendedores, em pleno século 19. “As coisas que estão acontecendo hoje em Wall Street, com instituições financeiras roubando dinheiro e tirando propriedades das pessoas, faz tudo parecer muito atual. Tudo o que Kurosawa falava em ‘Os Sete Samurais’ está acontecendo hoje”, acredita Fuqua.

Entra em cena o caçador de recompensas Sam Chisholm, vivido pelo ator Denzel Washington que, contratado pela jovem viúva (Halèy Bennett) de uma das vítimas de Bogue, recruta outros seis fora da lei dispostos a fazer justiça, como o jogador Josh Farraday (Chris Pratt) e o franco-atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke). “Chisholm é um herói moderno. Especialmente nos dias de hoje. [O presidente Barak] Obama é negro. E é heroico ser presidente dos Estados Unidos. A vida dele corre mais riscos do que a de qualquer um de nós. É um trabalho dos infernos, goste dele ou não”, defende o diretor.

É a terceira vez que Fuqua trabalha com Denzel Washington –as anteriores foram em “Dias de Treinamento” (2001), com o qual o ator ganhou o Oscar, e “O Protetor” (2014). “Quando sentei na sala de reuniões do estúdio MGM para montar o elenco, estava decidido a fazer algo especial, um evento. Aí me deu um estalo, e eu disse para os executivos: ‘Quero ver Denzel montado em um cavalo, vestido de preto, descendo uma colina. Ele é um dos astros mais populares de hoje, e nunca fez isso no cinema. As pessoas vão adorar isso’. E eles: ‘Ahn??’. Quando Denzel me disse ‘estou dentro’, o círculo se fechou”.

O grupo de justiceiros do filme ainda conta com o atirador de facas asiático Billy Rocks (Byung-hun Lee), o pistoleiro mexicano Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo), o índio comanche Red Harvest (Martin Sensmeier), e o rastreador grandalhão Jack Horne (Vincent D’Onofrio). “Diversidade era a palavra-chave”, observa Fuqua. “Porque era para ser contemporâneo e autêntico em relação ao período em que a história se passa. Nunca vi um faroeste assim antes. Comecei a me sentir mais confiante ao juntar as peças do filme. Meu medo não era falhar, porque entro no jogo para ganhar. Meu medo era não honrar o gênero”.

Para o diretor, é preciso acreditar no filme que se está fazendo. “Eu era mais jovem quando dirigi ‘Rei Arthur’ (2004). Conhecia a lenda desde garoto, mas nunca teve um lugar especial no meu coração, parecia algo estranho a mim. Aprendi que é necessário saber o que um filme significa para as pessoas, levando em consideração as circunstâncias em que ele foi visto e na companhia de quem. Quando se faz um filme como ‘Sete Homens e um Destino’, tem que se respeitar o passado e voltar ao autor original, que era o Kurosawa, cujo filme eu assistira com minha avó, e que se tornou especial por causa dela”

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