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Criador do Dogma 95 junto com Lars von Trier traz nova polêmica: amor livre

por Bibi Toledo / Publicado em sexta-feira, 02 set 2016 14:19 PM / / 395 views
 O cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg não foge de controvérsias. Já abordou temas como a pedofilia, em “A Caça” (2012) e “Festa de Família” (1998); as drogas, em “Submarino” (2010); e a paixão por armas, em “Querida Wendy” (2004). Seu longa mais recente, “A Comunidade”, que estreou nesta quinta-feira (1º) no Brasil, traz nova polêmica: fala de amor livre, em uma trama passada na Copenhague dos anos 1970. E o cineasta já avisou: seu próximo trabalho será sobre os benefícios do álcool.

A naturalidade com que transita entre temas-tabu talvez venha do modo libertário como foi criado –e que ele, agora, retrata no novo filme. “A Comunidade” mostra uma residência coletiva de inspiração hippie, embora essencialmente urbana e algo sofisticada, tal como a em que ele cresceu, nos anos 1970. Nos países nórdicos daquela época, era relativamente comum em meios intelectualizados que pessoas se agrupassem e morassem juntas, em casas comunitárias, buscando uma vida mais solidária, desapegada e livre.

Reprodução/Facebook

Criador do Dogma 95 junto com Lars von Trier traz nova polêmica: amor livre
O cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg

“Da minha perspectiva, não tive uma infância exótica. Mas sempre notei muita curiosidade dos outros sobre o que acontecia naquelas comunidades escandinavas”, disse o cineasta, ao lançar o filme no último Festival de Berlim (onde levou o prêmio de melhor atriz, para a notável Trine Dyrholm). “Há no filme episódios da minha vida, mas nem tudo. É mais baseado em um sentimento real que em uma história verdadeira.”

Na casa de “A Comunidade”, amigos se reúnem para dividir teto, comida e momentos bons e ruins. O foco é em um casal em crise –a mulher (Dyrholm) aceita que o marido traga para o lar sua amante mais jovem para fazer parte daquela grande “família”. Mas, mesmo na avançada Dinamarca setentista, esse modo de vida tão liberado tinha desafios.

Vida em comunidade

O filme é pudico se levarmos em conta a ideia que muita gente tem sobre como seria viver em uma comunidade pós-hippie. Há pouca droga e quase nada de discussão política –segundo o diretor, de propósito. “Havia muita politização, muita maconha, muita nudez, mas usei o filtro dos clichês para abordar esses temas. Claro, em um filme sobre aquele tempo esperam-se discussões políticas, mas justamente por isso resolvi deixá-las de fora”.

Vinterberg conta que muitos membros da sua comunidade foram morar ali por razões políticas, mas os motivos variavam muito. “Meu pai, por exemplo, vivia ali por questões práticas. Tinha um filho pequeno e queria que sempre houvesse alguém cuidando da criança. E ele sabia que, ali, precisaria fazer comida só uma vez na semana”. Outras pessoas, diz o diretor, se agrupavam por motivos emocionais: por solidão ou por se sentirem entediados em seus casamentos. “Na minha rua, havia 32 casas. Seis delas eram comunidades. E cada uma era distinta da outra, como cada família é diferente”.

As comunidades começaram a rarear na Escandinávia na década de 1980, quando a ânsia por liberdades individuais suplantou valores coletivistas. “Em 1975, pessoas atraentes levavam aquela vida mal comportada na primeira classe, em casas grandes, pelas quais podiam pagar. Era fantástico. Mas em 1985, se três famílias continuavam na casa, não queriam se mudar porque gostavam do jardim –e, agora, tinham uma faxineira. As pessoas foram se afastando, querendo privacidade. Foi algo natural”.

Vinterberg acredita que a internet ajudou a disseminar o espírito coletivo nas pessoas de hoje, mas de modo distinto. “Comunidades como aquelas acabaram em definitivo. Grupos de compartilhamento e a cortesia múltipla certamente continuam, mas não daquela forma. Não é mais sexy e vibrante como antes; aquilo virou museu. Hoje, pessoas dividem casas, mas com outro espírito, cada um tem a sua divisória na geladeira.”

O dinamarquês diz que o fato de ter sido criado naquele ambiente liberado foi decisivo em sua formação. “Nossos pais queriam nos libertar de um esquema patriarcal. Éramos tratados como adultos. O que eles não sabiam é que exigiam de nós uma responsabilidade muito grande. Muitos irmãos meus da comunidade sofriam com essa pressão. Eu nem tanto, amava a liberdade.”

Influência do álcool

Foi talvez dali que Vinterberg herdou o gosto pela transgressão. O cineasta se tornou mundialmente famoso por uma delas, quando, nos anos 1990, criou com o amigo Lars Von Trier o Dogma 95, manifesto cinematográfico que refutava filmes à moda de Hollywood e definia regras espartanas para as filmagens (vetava, por exemplo, o uso de cenários, luz artificial e até de música nos longas).

Hoje em dia, nem Vinterberg leva a sério as normas que ele mesmo criou. Prova disso é que, de vez em quando, filma em esquema “cinemão”, como “Longe Deste Insensato Mundo” (2015), produção britânica com Carey Mulligan. “Pode ser relaxante [filmar em grandes estúdios], porque é árduo você ser o rei o tempo todo no set. No estúdio, sou só um membro de uma equipe. Sequer tenho o corte final –do que eu, aliás, até gosto, porque pode resultar em algo divertido, criativo”, diz, com uma abertura de mente rara entre diretores mais autorais.

Essa mente aberta de Vinterberg, aliás, permite que ele aborde em seus filmes temas que, em outros países, talvez fossem inadmissíveis. Seu próximo longa na Dinamarca, por exemplo, será o que ele chama de “uma celebração do álcool”. “Há anos sou louco para fazer esse filme. A questão ali será o quanto alguém pode realizar sob a influência do álcool. Alguns dos melhores livros da história foram escritos por mentes embriagadas. A questão é o quanto se bebe, como se bebe. Sem contar que as conversas se expandem drasticamente a partir do consumo de álcool”.

Se ele mesmo costumaria criar embriagado? “Não tenho tempo. Estou sempre em aviões, ou trocando fraldas. Mas tenho necessidade de fugir da mediocridade. Faço isso lendo Hemingway, por exemplo, que não por acaso escrevia em cafés, bêbado. É o tipo de vida que eu gostaria de levar, mas que não posso”, confessa o cineasta.

“Agora, claro, também se morre por conta do álcool. Muitos enlouquecem e terminam suas vidas na merda. Literalmente, até”, pondera. “Mas também isso é fascinante: como o álcool pode ajudar a criar tanta coisa e a matar tantas outras.”

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