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Sem medo de comparações, Juliana Paes volta a papel que foi de Sonia Braga

por Bibi Toledo / Publicado em terça-feira, 09 ago 2016 11:57 AM / / 691 views
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    Sem medo de comparações, Juliana Paes volta a papel que foi de Sonia Braga
    Leandro Hassum, Juliana Paes e Marcelo Faria são Teodoro, Flor e Vadinho na nova versão de “Dona Flor e seus Dois Maridos” para o cinema

Vestida de preto da cabeça aos pés, Juliana Paes caminha lentamente até um túmulo pintado de branco e, cabisbaixa e em silêncio, deposita algumas flores sobre ele. A atriz permanece assim, com o olhar perdido em pensamentos, por alguns segundos, até o diretor Pedro Vasconcelos gritar “corta!”, anunciando o final da cena, rodada em torno de uma sepultura cenográfica em uma das ruelas do pequeno cemitério de Guaratiba, na região rural da Zona Oeste do Rio.

A sequência também encerra a participação de Juliana nas filmagens de “Dona Flor e seus Dois Maridos”, nova adaptação do romance de Jorge Amado, na qual a atriz interpreta o icônico papel-título, que marcou a carreira de Sonia Braga. Quatro anos atrás, Juliana protagonizou a minissérie “Gabriela”, da Globo, outro personagem carregado de sensualidade criado pelo escritor baiano, também imortalizado por Sonia na TV e no cinema, nos anos 1970 e 1980.

Juliana não se faz de rogada quando questionada sobre a “coincidência”: “Ela sempre foi uma grande inspiração para mim. Mesmo antes de fazer ‘Gabriela’, eu a tinha como o suprassumo da feminilidade, da beleza e da sensualidade da mulher brasileira. Quando fui chamada para a minissérie, corri para assistir a tudo o que ela havia feito em cinema e na TV”, admite a atriz de 37 anos, enquanto abana as pontas do vestido preto de Flor para afastar os mosquitos do fim de tarde calorento.

 

Sem medo de comparações, Juliana Paes volta a papel que foi de Sonia Braga
Juliana Paes filma sua última cena em “Dona Flor e seus Dois Maridos” no cemitério de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio

Mas a atriz fluminense –que saiu das gravações da novela “Totalmente Demais”, encerrada em julho, direto para o set de “Dona Flor e seus Dois Maridos”–, não teme comparações com Sonia, 65, diva do audiovisual brasileiro há décadas. “Na época de ‘Gabriela’, as pessoas vinham me perguntar: ‘Você não tem medo das cobranças?’ As comparações são inevitáveis, mas o que eu fiz na TV e estou fazendo agora em cinema é uma homenagem, porque a Sonia é uma musa para mim”, avisa.

As duas atrizes chegaram a trocar figurinhas na época de “Gabriela”, que tinha no elenco nomes como Humberto Martins, Marcelo Serrado e Maitê Proença. “A Sonia chegou a me mandar uma carta linda, me dando as bênçãos para fazer o papel, o que foi muito significativo. Para o ‘Dona Flor e seus Dois Maridos’ a gente não chegou a se falar, mas foi por pura falta de tempo, porque tive muita vontade de ligar para ela e dizer: ‘Ai, Sonia, mais um!'”.

Do livro para os palcos, dos palcos para as telas

Juliana foi a primeira opção do diretor Pedro Vasconcelos, autor da adaptação do livro para o teatro, em montagem que viajou pelos palcos brasileiros por cinco anos. “Ela  também havia sido minha primeira opção para a peça, quando comecei a montá-la, dez anos atrás. Mas não conseguimos afinar a agenda. Juliana é hoje a representação da musa ‘jorgeamadiana’, tanto por suas qualidades como atriz, como pelas escolhas que fez na carreira”, elogia o diretor.

Ator e diretor de cinema e teatro, Vasconcelos dirigiu diversos produtos da Rede Globo, como a série “Sítio do Pica-Pau Amarelo” (2001), a minissérie “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes” (2007), e a novela “Império” (2014). “Muitas pessoas têm preconceito com os atores globais, com pessoas que fazem novela. Mas a Juliana buscou um caminho dela. Fez um trabalho emocionante no filme ‘A Despedida’, com o qual ganhou prêmios, e me levou aos prantos. Ela está em um momento maravilhoso”.

Na nova versão de “Dona Flor e seus Dois Maridos” para o cinema, Juliana contracena com Leandro Hassum, que vive Teodoro, o discreto segundo marido da protagonista, e Marcelo Faria, que encarna o espírito de Vadinho, o primeiro marido de Flor, mulherengo e farrista, que morre em pleno Carnaval baiano. Os dois personagens foram interpretados respectivamente por Mauro Mendonça e José Wilker no sucesso lançado por Bruno Barreto em 1976.

Marcelo Faria é o único elemento do elenco do filme que repete o personagem que interpretou nos palcos, na montagem de Vasconcelos. “A peça, que se propunha a fazer um mergulho no livro do Jorge Amado, ficou em cartaz por cinco anos, e foi vista por mais de um milhão de espectadores ao longo desse tempo. A gente percebia a identificação das pessoas com a história, que várias gerações ainda não conheciam. Daí surgiu a ideia de levá-la para o cinema também”, lembra o diretor.

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Sem medo de comparações, Juliana Paes volta a papel que foi de Sonia Braga

Juliana Paes e Marcelo Faria em cena de “Dona Flor e seus Dois Maridos”. Faria é Vadinho, o mulherengo primeiro marido de Flor, que volta após a morte

Releitura

O filme de Barreto atraiu mais de 10 milhões de espectadores na época, e por mais de três décadas foi recordista de bilheteria no Brasil, até ser desbancado por “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, em 2010. Mas Vasconcelos avisa que não está fazendo um remake do sucesso estrelado por Sonia Braga. “Assim como a peça, estava mais preocupado em me aprofundar mais no livro do Jorge Amado do que qualquer outra coisa. Não tenho a pretensão de disputar com o clássico do Bruno Barreto”.

O diretor prefere classificar o seu “Dona Flor” como uma “releitura”, que privilegia a psicologia dos personagens do romance. “Senti que poderíamos fazer um filme com uma ênfase  maior nos personagens do que nos atores que iriam interpretá-los. A Sonia, o Wilker e o Mauro fizeram um trabalho maravilhoso na primeira versão, mas eram figuras enormes na época. Havia a personalidade do ator brigando com a do personagem. Aqui, acontece o oposto: peço aos atores que se desfaçam de suas personalidade e mergulhem na história desses personagens, que têm muito para contar.

O filme de Vasconcelos resgata momentos do livro ignorados na versão de Bruno Barreto. “Alguns detalhes encantadores do romance foram recuperados, como a guerra dos orixás contra Exu para tentar levar Vadinho de volta às trevas, que é uma passagem belíssima. Há também o primeiro encontro de Flor com Vadinho, que acontece em um baile, no qual ele entrou se fazendo passar por um figurão da Bahia. Dona Rosilda, a mãe de Flor, que é uma fera, também ganha importância no meu filme”.

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Leandro Hassum e Juliana Paes em cena de “Dona Flor e seus Dois Maridos”. Hassum é Teodoro, segundo marido de Flor

Questões atuais

Publicado em 1966, a trama de “Dona Flor e seus Dois Maridos”, que é ambientada na Salvador dos anos 1940, expõe questões que permanecem atuais até hoje. “É um dos poucos livros do Jorge mais interessado nos personagens do que no que acontece no entorno deles, ao contrário de ‘Capitães da Areia’ e ‘Mar Morto’, por exemplo. É um romance que se abre para o universo de uma mulher, para a alma feminina, e não com o contexto social da Bahia”, compara Vasconcelos, que rodou as cenas externas na capital baiana.

Juliana identifica Jorge Amado como um autor feminista: “Ele coloca a mulher em um lugar de força, quando explicita os desejos de Flor, quando a descreve como uma mulher doce e casta e que, ao mesmo tempo, cede às investidas de Vadinho”, aponta a atriz. “É uma história que é e sempre será atual, porque lida com a dualidade do ser humano, o equilíbrio entre a razão, representado por Teodoro, o certinho, e a emoção, representada por Vadinho, a paixão. É um duelo que a gente carrega pela vida inteira”.

“Dona Flor e seus dois maridos” foi rodado ao longo de cinco semanas, em locações na região do Pelourinho, no centro histórico de Salvador, onde Jorge Amado imaginou a trama de seu romance, e no Rio de Janeiro. Produzido pela Reginaldo Farias Produções Artísticas e com distribuição da Downtown Filmes e da Paris Filmes, tem estreia prevista para o primeiro semestre de 2017. Também fazem parte do elenco nomes como Nívea Maria, Fabio Lago, Duda Ribeiro e Haroldo Costa.

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