Estuprada em suspense, Dieckmann diz que fez seu trabalho mais desafiador

DivulgaçãoLeonardo Sbaraglia e Carolina Dieckmann em cena do filme "O Silêncio do Céu", de Marco Dutra

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    Estuprada em suspense, Dieckmann diz que fez seu trabalho mais desafiador
    Leonardo Sbaraglia e Carolina Dieckmann em cena do filme “O Silêncio do Céu”, de Marco Dutra

     

Terceiro longa do diretor paulistano Marco Dutra (de “Quando Eu Era Vivo” e “Trabalhar Cansa”, codirigido por Juliana Rojas), o suspense psicológico “O Silêncio do Céu” foi exibido na competição do Festival de Cinema de Gramado na noite de domingo (28) e já é um dos fortes candidatos ao Kikito de melhor filme desta edição.

O filme é estrelado por Carolina Dieckmann, que interpreta uma mulher vítima de estupro e disse, durante conversa com jornalistas da qual participaram o diretor e parte da equipe, que este foi seu trabalho mais desafiador, principalmente por ser todo falado em espanhol, e que o filme foi feito muito antes de o debate sobre a violência contra a mulher se intensificar.

“Não foi algo proposital, mas ilustramos essa realidade de alguma forma, é um serviço além do filme. E é também uma felicidade quando a gente consegue, através da arte, levantar uma discussão e chegar nas pessoas”, destacou a atriz, que revela gostar de fazer dramas.

No longa, após ser vítima de um estupro dentro de casa, presenciado pelo próprio marido, Mario (Sbaraglia) – que não reage –, a estilista Diana (Dieckmann) escolhe manter o trauma em segredo. Mario também tem algo a esconder. O silêncio que toma conta do casal ao longo dos dias se transforma, pouco a pouco, também em uma forma de violência – a das relações humanas, muitas vezes escondida na omissão, na incomunicabilidade e no medo de se expor ao outro. Ele quer que ela conte o que houve – já que a mulher não notou a presença dele durante o estupro –, mas ela só repete que “está tudo bem”. Ao mesmo tempo, toma vários banhos por dia, para se “limpar” do abuso sexual, e começa a ter pesadelos recorrentes.

Dutra acrescentou que a cena de estupro que abre o filme –e se repete na sequência, sob outro ponto de vista– foi uma das mais difíceis que já dirigiu. “Fizemos storyboard e discutimos tudo em detalhes para que tudo fosse o menos doloroso possível, mas ainda assim foi doloroso”, admitiu o cineasta, de 36 anos.

“Abordamos esse tema de forma muito séria e dedicada, é um assunto duro, não é fácil falar sobre esse tipo de trauma. Aí entram o silêncio, a incomunicabilidade, a impossibilidade de colocar essa questão em diálogos”, destacou Dutra, que tem concentrado suas obras no universo doméstico da classe média.

Aulas de espanhol e integração latina

Dieckmann conta que falava muito pouco espanhol antes de “O Silêncio do Céu”. “Não tinha um conhecimento profundo da língua, por isso concentrei minhas aulas em cima do roteiro, para que a atuação e a interpretação do texto não ficassem limitadas”, disse.

Segundo a atriz, nesse sentido, foi o trabalho mais difícil que ela já fez. “A gente sente na língua-mãe, o desafio foi buscar sentido num idioma que eu conhecia pouco”, revelou.

Previsto para ser lançado no país em 22 de setembro, o longa de 1h41 é uma coprodução de Brasil e Chile, foi rodado no Uruguai e tem no elenco os atores argentinos Leonardo Sbaraglia (de “Relatos Selvagens”) e Chino Darín (cujo sobrenome não é mera coincidência: ele é filho de Ricardo Darín, maior astro do cinema argentino). Toda essa mistura latina de “O Silêncio do Céu” reúne justamente as características de internacionalização pretendidas pelo festival, que vem buscando estreitar os laços com a América Latina e, desde 2012, tem a argentina Eva Piwowarski entre seus três curadores.

O roteiro estava pronto desde 2010, mas ficou engavetado por alguns anos, segundo o produtor Rodrigo Teixeira. É inspirado no romance “Era el Cielo”, do argentino Sergio Bizzio. “A ideia inicial também era ter gravado em São Paulo. Mas assim se tornou uma oportunidade de integração latina, só a gente que é isolado, os outros países se conectam mais. E eles têm muito mais interesse em nós do que nós neles”, afirmou Teixeira.

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