TOPO

Em seu primeiro filme, Cininha de Paula quer mandar mensagem para mulheres

por Bibi Toledo / Publicado em domingo, 17 jul 2016 11:00 AM / / 641 views
  • Divulgação
    Em seu primeiro filme, Cininha de Paula quer mandar mensagem para mulheres
    Cininha de Paula dirige os chefs Flavia Quaresma, Claude Troisgros e André Mifano

     

Cininha de Paula se levanta constantemente da mesa de vídeo, de onde controla o que é captado pelas câmeras, para ir ao set orientar a equipe. Coreografa os movimentos dos atores dentro do cenário, que simula um reality show culinário televisivo, construído em um estúdio em Curicica, na Zona Oeste do Rio. Conversa com os técnicos sobre a melhor posição em cena dos equipamentos e elementos cenográficos. E dá pequenas broncas em quem cisma não estar a postos nos ensaios.

É esse estilo de trabalho, desenvolvido ao longo de quase três décadas como diretora de peças, programas de TV e anúncios publicitários, que Cininha está levando para o set da comédia “Duas de Mim”, sua estreia na direção de longas-metragens. “Hoje não existe gente de cinema ou de televisão. O que há são profissionais capazes de realizar um produto de mãos dadas”, diz Cininha, 63, durante um dos poucos intervalos das filmagens.

“No teatro, existe um ditado que diz: ‘Seguro a minha mão na sua, olho nos seus olhos para que possamos fazer juntos aquilo que não posso, não devo e não quero fazer sozinho'”, recita ela, repetindo as palavras que lhe serviram de mantra durante as cinco semanas de filmagem. “Nosso cronograma é enlouquecedor. Diria que estou rodando quatro seriados em 24 dias. E que a TV Globo não saiba disso, senão vão me botar para trabalhar mais ainda”, brinca a diretora, que tem no currículo humorísticos como “Escolinha do Professor Raimundo” e seriados como “Toma Lá, Dá Cá”.

Divulgação

Em seu primeiro filme, Cininha de Paula quer mandar mensagem para mulheres
Thalita Carauta no filme “Duas de Mim”

Estreia de Thalita Carauta

O filme também marca a estreia da atriz e comediante Thalita Carauta como protagonista. Na trama, escrita por Carolina Castro e L.G. Bayão, ela interpreta Suryellen, mãe solteira superatarefada, que vende quentinhas e lava pratos em um restaurante chique enquanto sonha ser uma renomada chef de cozinha. Um dia, uma boleira misteriosa lhe oferece a chance de realizar o seu maior desejo, que é dar conta de tantas tarefas e responsabilidades. Isso se concretiza na forma de uma cópia sua, que ganha consciência própria e se transforma em mais um problema do que uma solução.

“A Suryellen é uma representante da brasileira. O filme levanta uma bandeira legal para a mulher contemporânea, que tem dois empregos e só quer o melhor para o filho. Ela é um personagem que conhecemos de perto”, resume Thalita, 33, que fez papéis coadjuvantes em filmes como “S.O.S Mulheres ao Mar”, “A Mulher Invisível” e “O Lobo Atrás da Porta”. “Pode parecer hipocrisia minha, mas nunca me interessei em ser protagonista em um filme. Os coadjuvantes têm mais liberdade para criar, de brincar mais descompromissadamente. Mas fiquei muito feliz com o convite da Cininha”.

Segundo Cininha, uma das razões de ter aceitado o convite da produtora Iafa Britz para dirigir o projeto foi poder dar a Thalita o que era de Thalita. “Eu a conheço desde a peça ‘Suburbanos’ (2005), e sempre achei que ela era uma menina muito talentosa, merecia esse protagonismo”, devolve a diretora, que vê no filme a chance mandar uma mensagem para as mulheres. “Estamos dizendo com essa história que não estamos sozinhas, que todas nós temos as mesmas dificuldades para sermos perfeitas em casa ou no trabalho. Para sermos perfeitas de verdade precisaríamos de umas quatro cópias, e não uma só”, ri a diretora.

Suryellen mora no subúrbio carioca com Maxsuel (Gabriel Lima), o filho adolescente, e paga um dobrado para dar boa vida à mãe aposentada, Sonja (Maria Gladys), e à irmã encostada, Sarally (Letícia Lima). Vive uma história de amor mal resolvida com o cozinheiro Chicão (o cantor Latino). Com locações em Marechal Hermes, no subúrbio da capital fluminense, e na Barra da Tijuca, “Duas de Mim” devolve Thalita aos personagens populares que a consagraram no teatro, na TV e no cinema.

“Qualquer desafio novo é sempre interessante, seja um tipo popular ou não. Não tenho restrições quanto a isso”, diz a atriz, que usou as folgas das filmagens para gravar a nova temporada do programa humorístico “Zorra Total”, atração da Globo, na qual dá vida a diversos personagens. “A profissão do ator é a das possibilidades. A gente tem que continuar trabalhando, onde quer que seja, porque as contas continuam chegando todo mês”.

Conselhos do tio Chico Anysio

Na cena, Suryellen e sua cópia disputam provas de um programa culinário da TV –a cópia é interpretada por uma dublê, que posteriormente ganhará as feições de Thalita com ajuda de um trabalho de trucagem digital. No afã de ganhar o concurso, o duplo de Suryellen quase provoca um incêndio nos estúdios onde o reality está sendo gravado, gerando pânico generalizado.

Cininha diz que “Duas de Mim” é uma combinação de subgêneros cômicos. “Tem um pouco de vaudeville, aquele entrar e sair de personagem batendo portas; e de comédia romântica, porque fala de uma moça pobre, cheia de sonhos, apaixonada por um cover do Latino. Mas tem também um pouco da comédia emocionada, na qual a gente ri do sofrimento dos personagens; e também um pouco da comédia pastelão, aqui representadas nas situações envolvendo o reality culinário”.

“Acredito na comédia emocionada, embasada da verdade”, explica Cininha, lembrando um conselho de seu tio famoso, o humorista Chico Anysio (1931-2012). “Ele dizia umas coisas muito sérias para mim sobre comédia: ‘Minha filha, o que é absurdo demais, não pode ser comédia. Se você tem uma situação que por si só é absurda, transforme-a na mais real possível, e aí ela dará uma boa comédia'”, relembra.

Cininha chegou ao set de “Duas de Mim” com várias referências de filmes sobre duplo na cabeça. “Alguns filmes que me inspiraram são bons de ritmo, outros são completamente disrítmicos. Não quero criticar, porque quem sou eu para falar mal do trabalho de um colega, seja ele americano ou brasileiro. Mas posso dizer que uma das principais referências foi a comédia ‘Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias’ (1996). Agora, as outras eram 80% dramas, que é mais fácil, porque têm um tempo mais lento”.

Produzido pela Midgal Filmes e distribuído pela Paris Filmes e a Dowtown Filmes, “Duas de Mim” é recheado de participações especiais. Entre elas estão os chefs de cozinha Flavia Quaresma, André Mifano e Claude Troisgros, que servem como jurados de mentirinha do concurso de receitas do filme. Estrela de programas culinários como “Que Maravilha!” e “The Taste Brasil”, Troisgros estreou no cinema fazendo uma aparição relâmpago na comédia “O Crime da Cabra”, ainda inédito.

“Aqui, em ‘Duas de Mim’, a minha participação é bem maior”, confessa Troigros. “Essa experiência com cinema é muito interessante, porque é totalmente diferente dos realities culinários que faço, onde tudo é improvisado, não tem um roteiro com diálogos e marcação de posição no set. Na TV, a gente solta o bicho e faz o que quiser. Aqui é o oposto”, distingue o chef francês radicado no Brasil. “Mas sou em cena, não sou ator, mesmo. Minha profissão é cozinhar. Com 60 anos querer ser ator seria demais (risos)”.

|