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Filme mostra a trajetória de Frank Aguiar, mas vida política fica de fora

por Bibi Toledo / Publicado em quinta-feira, 09 jun 2016 12:57 PM / / 414 views

O filme “Os sonhos de um sonhador – A história de Frank Aguiar” finalmente chega ao circuito comercial nesta quinta-feira, 9, ocupando salas de cinema em São Paulo, Teresina, Recife e Salvado, depois de mais de seis anos de espera. Tendo sido filmada em 2009, essa cinebiografia mostra a trajetória de Francineto Luz de Aguiar desde a infância até a consagração como “o cãozinho dos teclados”. Tanto atraso se deve, segundo o diretor Caco Milano, ao fato de o filme ter sofrido preconceitos da própria classe cinematográfica.

“Faltou grana para finalizar como eu queria e vivemos também muito preconceito do meio. Não vou citar nomes, mas é de arrepiar. Cheguei a ouvir que não me deixariam exibir o filme por ser a biografia do Frank”, garante o cineasta.

A democracia no cinema brasileiro é questionável. Os caras querem filmes autorais, pseudointelectuais ou comédias com cara de novela das sete e eu fiz um filme para o povão. Não para a crítica. Quero falar com o trabalhador, o lutador, o migrante.
Antes de chegar ao circuito comercial, o filme ficou esquecido por alguns anos até ser exibido no Cine PE de 2013.

Certamente o público-alvo do filme se identificará com a história de luta, sorte, sonhos e artimanhas do artista que saiu da pequena cidade de Itainópolis, no interior do Piauí, e partiu para São Paulo com o desejo de gravar um disco e fazer sucesso nas rádios e na televisão, o que conseguiu. Contando com narração do próprio Frank Aguiar, o longa-metragem também é marcado por uma das últimas atuações de Chico Anysio e traz no elenco, entre outros, Rosi Campos e Nelson Xavier. Para interpretar o artista foi escolhido o jovem ator Gustavo Leão. “Ele é um ator muito bonito, com um lindo sorriso. Um ator muito esforçado. Gosto do resultado. Quem conhece e convive com o Frank sabe que ele fez um bom trabalho”, justifica Caco.

Vida de sonhador

“Toda vida é uma história e toda conquista começa de um sonho. É preciso primeiro sonhar com aquele feito para que um dia, quem sabe, ele vire realidade. Mas sem dúvida alguma para que um sonho vire realidade é preciso dar o primeiro passo”, narra Frank Aguiar ainda nos créditos. Esse primeiro passo é justamente o que se vê ao longo do filme todo, com destaque para uma sequência em que, no dia em que tem um show agendado para a noite, os instrumentos musicais do artista são destruídos por pura inveja. Ele, então, ao invés de desistir, resolve insistir e, com a ajuda de comerciantes e rádios locais, consegue todo o equipamento necessário e faz o tal show.

O filme começa com o garotinho Francineto ficando tão encantado com dois cantadores cegos que faziam maravilhas com o violão a ponto de contar para o pai, Chico das Dores (Nelson Xavier), que deseja perder a visão. A partir daí, ele se aventura a tocar na igreja, onde rapidamente se identifica com o teclado, instrumento que o tornaria famoso. Aos quinze anos, deixou a terra natal para estudar no curso de música da Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina, contra a vontade do pai e da mãe, Zulmira (Rosi Campos), que queriam vê-lo doutor.

É nesse momento que a música realmente fala mais alto na vida de Frank Aguiar e ele passa a se dividir entre tocar na igreja e acompanhar um músico da noite, o qual, numa certa ocasião, interrompe o show para descansar e, numa das cenas mais bonitas do filme, o garoto tem a ideia de inserir teclado no forró e, com isso, contagia todos os presentes. É quando chega o momento de ele alçar voos maiores e partir para a carreira solo, na companhia de outros dois músicos.

Foi justamente essa história de perseverança que motivou Caco Milano a fazer o filme, que segue no caminho de várias outras cinebiografias que contam a história de ídolos da música brasileira e que foram iniciadas, de certo modo, com “2 Filhos de Francisco” (2005), de Breno Silveira, que mostra o começo da trajetória de Zezé di Camargo & Luciano. “Tinha acabado de voltar da Itália e queria fazer o que vi lá. Existe uma cultura de se valorizar pessoas que servem como referência. Queria fazer isso no Brasil. Por coincidência um amigo me disse que tinha um amigo que queria fazer uma biografia…”, conta Caco.

As artimanhas do sucesso

Divulgação

Filme mostra a trajetória de Frank Aguiar, mas vida política fica de fora
Chico Anysio, em um de seus últimos trabalhos, interpreta o empresário Alemão

Com roteiro escrito por Caco Milano e Frank Aguiar, o filme tem como seu ápice o encontro do músico, que se mudara para São Paulo em 1992, com o empresário musical Alemão (lindamente interpretado por Chico Anysio), que, quase sem querer, se vê diante de um cassete deixado por ele e se encanta com a novidade que escuta, ou seja, forró tocado no teclado. A partir daí, Alemão passa a se dedicar a carreira do novo artista e começa levando-o numa feira popular, onde ludibriam alguns vendedores, convencendo-os a vender cópias do tal cassete.

Outra ideia brilhante de Alemão é mostrá-lo para contratantes de show, que oferecem para ele apenas a segunda-feira e criam o apelido “cãozinho dos teclados”. As apresentações passam a chamar atenção ao ponto de, enquanto o empresário agenda um show no Nordeste, o próprio Frank Aguiar marca para a mesma data uma apresentação no que é denominado o programa mais popular da televisão. Para resolver o problema, convencem um homem a alugar um jatinho para eles, recebendo depois do show. O filme termina então no momento em que tudo dá certo e, finalmente, o forrozeiro parte para a gravação do primeiro disco. O resto é a história que todo mundo já sabe. “É a história da perseverança. Ele guerreou muito e conseguiu, mas com muita labuta e muita fé”, completa Caco.

Nada de política

Filiado ao PMDB, Frank Aguiar também é conhecido por sua atuação política tendo sido deputado federal pelo estado de São Paulo entre 2007 e 2011, e atualmente ocupa o posto de vice-prefeito de São Bernardo do Campo (SP). Chegou também a ser cogitado para substituir o então ministro da Cultura do governo Lula, Gilberto Gil, o que não se concretizou. Porém, o nascedouro dessa vertente foi, por opção, deixado de fora do filme, assim como a atuação dele como radialista e apresentador de televisão. “Foi uma questão minha só mostrar o artístico. Não gosto da realidade política brasileira”, argumenta Caco.

Portanto, mesmo tendo sido vítima de preconceitos – os mesmos que discriminam os artistas legitimamente populares como Frank Aguiar –, o filme mostra a trajetória de um vencedor, sem cair na pieguice ou na autoajuda e sem esconder as artimanhas que existem no meio artístico. Ao final, a sensação que fica é que é possível, sim, realizar os sonhos, desde que se tenha muita perseverança e criatividade. “Ele é um artista de massa que ocupa um espaço curioso. O que me chamou muito a atenção foi um artista fora da grande mídia vender o que ele vende, tanto de shows como de CDs”, avalia. E finaliza: “Acho que a massa tem o direito de escolher sua arte”.

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