Uma cidade no interior do RJ quer ensinar o Brasil a fazer cinema

Da 18ª fileira de um improvisado cinema ao ar livre, José Francês, um senhor de 66 anos e uma imponente barba grisalha, não tirava os olhos da tela. Apoiado em seu guarda-chuva, não permitia que nada o distraísse dos seis curtas-metragens que foram projetados na noite desta terça-feira (17), durante o 7º Festival Internacional Estudantil de Cinema, na cidade de Barra do Piraí, a 100 km do Rio de Janeiro.

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provisado cinema ao ar livre, José Francês, um senhor de 66 anos e uma imponente barba grisalha, não tirava os olhos da tela. Apoiado em seu guarda-chuva, não permitia que nada o distraísse dos seis curtas-metragens que foram projetados na noite desta terça-feira (17), durante o 7º Festival Internacional Estudantil de Cinema, na cidade de Barra do Piraí, a 100 km do Rio de Janeiro.

Os olhos de Francês brilhavam a cada cena amadora exibida no telão, instalado no fundo da tenda montada na rua, ao lado da praça Nilo Peçanha. O espaço, que estava lotado, era suficientemente grande para abrigar 500 pessoas sentadas e nem mesmo o barulho dos motores dos carros e ônibus que passavam a menos de 2 m dos assentos, parecia incomodá-lo.

Todos os filmes exibidos no evento foram produzidos por estudantes do ensino médio e fundamental do próprio município fluminense de 96 mil habitantes. Os outros vieram do Irã, Argentina, Rússia e outras cidades do Brasil.

Embora não seja estudante, Francês, que é artista plástico, gosta tanto do festival que já participou como ator ou figurante em 30 dos mais de 100 curta-metragens produzidos pelos adolescentes desde 2009. Naquele ano, o secretário municipal Roberto Monzo criou o projeto Luz, Câmera e Educação, que capacita os próprios professores a ensinar as diversas etapas da produção cinematográfica aos jovens estudantes. Eles aprendem a usar as câmeras, como operar o áudio, noções de enquadramento, direção, atuação, roteiro e sonoplastia.

Edson Lopes Jr./UOL

Uma cidade no interior do RJ quer ensinar o Brasil a fazer cinema

Antiga estação ferroviária de Barra do Piraí, que serve de cenário para filmagens

Festival quixotesco

Há quase 15 anos, desde quando o último cinema de rua fechou as portas, o município não possuía nenhuma sala de projeção. Nesse período, era comum encontrar jovens que nunca tinham ido ao cinema.

Mas a criação do festival e também de uma “film comission” – órgão de governo que se dispõe a facilitar a  vida de cineastas que decidam usar a cidade como locação – mudaram esse cenário. Barra do Piraí tornou-se o Polo Audiovisual de Barra do Piraí, com a gravação de alguns longas-metragens na cidade, e em 2012, atraiu o interesse de uma rede da região sul-fluminense que percebeu a oportunidade e abriu duas salas, cada uma com capacidade para 200 pessoas. Nesta semana, o espaço exibia os longas “Angry Birds 3D”, “O Caçador e a Rainha do Gelo” e “Capitão América: Guerra Civil”, todos dublados.

A batalha quixotesca de Roberto Monzo para ensinar a sétima arte aos estudantes inspirou, inclusive, o design do troféu do festival, chamado informalmente de o “Oscar do cinema estudantil”. “Escolhemos o Dom Quixote para o troféu porque, assim como o personagem de Cervantes, tivemos um sonho e com bravura e coragem fomos em frente”, explica o secretário.

Com orçamento de apenas R$ 70 mil para todo o projeto, a prefeitura conta com patrocínio da iniciativa privada para a viabilizar a produção dos filmes dos alunos e a realização do festival. Principal parceira, a produtora Mauá Filmes capacita os professores, além de emprestar as câmeras e ilhas de edição, rateando os custos desse trabalho com uma empresa de transportes locais. Hotéis, restaurantes da cidade e até uma escola de inglês – responsável pelas legendas dos filmes que vêm do exterior – também participam, em troca da exibição de seus logos no início dos filmes.

A pouca grana não impediu que o festival fluminense, que coincidentemente ocorre na mesma semana que o tradicionalíssimo Festival de Cannes, na França, trouxesse para Barra do Piraí três estudantes italianos para fazer intercâmbio. No final do ano, outros três estudantes da cidade vão para Giffoni Valle Piana, na Itália, para participarem do Giffoni Film Festival, um dos maiores do gênero no mundo.

Edson Lopes Jr./UOL

Uma cidade no interior do RJ quer ensinar o Brasil a fazer cinema

Não existe faculdade de cinema na região. Quando me formar, quero sair daqui para fazer faculdade de artes cênicas

Evelyn Mayrink Pereira, 18, melhor atriz pelo curta “Lembra de Mim”

Matheus Cunha Seabra, de 19 anos, morador do distrito de Ipiabas, na zona rural de Barra do Piraí, teve contato pela primeira vez com o cinema aos 14 anos, dentro do projeto Luz, Câmera, Educação. “Quando criaram o projeto, eu não tinha interesse, já que nunca tinha ido ao cinema”, conta. “Comecei atuando, mas depois decidi me dedicar as áreas técnicas como câmera e direção.”

Por conta de sua dedicação, o adolescente trabalhou em algumas das grandes produções já filmadas na cidade como a comédia “O Casamento de Gorete”, com o humorista Rodrigo Sant’Anna e produção de Letícia Spiller, e “A Serpente”, com Matheus Nachtergaele e Lucélia Santos. “Mas se eu quiser crescer profissionalmente, ainda é preciso sair de Barra do Piraí para tentar uma carreira no Rio de Janeiro”, analisa.

Foi o que fez Thamiris Gouvea Rocha, 18, que há um ano mora no Rio de Janeiro. Seu amor ao cinema é tanto que ela tem tatuada no braço uma claquete com uma frase em inglês: “Nascida para filmar”. “Comecei no projeto com 12 anos e naquela época nunca tinha ido ao cinema. Hoje, no Rio, eu tenho a segurança de chegar em uma empresa e dizer que tenho experiência na área”, diz.

Na atuação, uma das promessas é a atriz e estudante de ensino médio Evelyn Mayrink, 18. No ano passado, sua atuação no curta “Lembra de Mim”, produzido no CIEP onde ela estuda, rendeu-lhe o prêmio de melhor atriz. Neste ano, ela deverá ser indicada em quatro categorias do festival. “Não existe faculdade de cinema na região. Quando me formar, quero sair daqui para fazer faculdade de artes cênicas.”

Edson Lopes Jr./UOL

Uma cidade no interior do RJ quer ensinar o Brasil a fazer cinema

Fazenda São João da Prosperidade, usada como locação para filme de Ruy Guerra

Grandes produções

Embora não possua nenhum estúdio e não tenha estrutura para reter os jovens talentos formados no projeto, o Polo Audiovisual de Barra do Piraí já produz frutos reais, com a atração de 17 grandes produções para a cidade. Monzo conta que o município não oferece dinheiro para incentivar os produtores a filmar na região, mas que eles escolhem Piraí por causa de sua diversidade de locações naturais, mão de obra que está se qualificando na área, custo de vida barato, hospedagem e transporte, além da tal “film commission”.

“Somos uma das poucas cidades do interior que possuem uma ‘film commission’, responsável por transformar Barra do Piraí em um cenário a céu aberto e facilitar os filmes produzidos por aqui”, diz. A título de comparação, São Paulo, a maior cidade do Brasil, só criou a sua “film commission” neste ano.

Monzo diz que o polo de Piraí é diferente do de Paulínia, no interior de São Paulo, que atraiu as filmagens de diversos longas nacionais como “Bruna Surfistinha”, “O Palhaço” e “Vai que Dá Certo” e também realiza seu próprio festival, que chegou a oferecer o maior prêmio do país para os longas vencedores. “Aqui, estamos criando uma cultura cinematográfica de baixo para cima. Ao contrário de Paulínia, que tinha muito dinheiro e criou o polo na marra, sem preparar a cidade”, alfineta Monzo.

Entre as locações apontadas por Monzo estão fazendas bicentenárias construídas no auge do ciclo do café no Brasil. Foi em uma delas, por exemplo, que o diretor Ruy Guerra filmou “Quase Memória”, com Tony Ramos, João Miguel e Mariana Ximenes. O longa abriu o festival no último domingo.  Tony Ramos falou sobre como foi filmar em Barra do Piraí.

“Qualquer cidade tem barulhos de automóveis, mas em Barra do Piraí, quando o diretor dizia ‘gravando’, tudo ficava em silêncio. Parecia que até os carros paravam de circular. Era uma manifestação popular muito bonita”, lembra Tony. “Na minha opinião, o festival estudantil não tem que se preocupar em encontrar prováveis talentos e sim dar a oportunidade para os jovens experimentarem. Esse é o maior legado.”

Já o diretor Ruy Guerra disse que é fundamental que polos de cinema se multipliquem pelo Brasil. “Um polo cinematográfico dá à cidade a possibilidade de fazer seus próprios filmes e mostrar a sua cultura sem ficar refém dos grandes centros. Isso é fundamental.”

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