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Marcelo Tas: A importância da crítica de TV e o mico-leão grisalho

por Redação / Publicado em segunda-feira, 23 maio 2016 11:22 AM / / 372 views
  • Leonardo Soares/Popzone

    Marcelo Tas: A importância da crítica de TV e o mico-leão grisalhoCrítico do Popzone, Mauricio Stycer está lançando o livro “Adeus, Controle Remoto”

Acreditem crianças, antigamente não havia Internet. Todos assistiam televisão calados e colados no sofá. Um famoso comediante chamava o telespectador de “o da poltrona”. A crítica tinha o poder de tirar uma peça de teatro de cartaz ou abalar a trajetória de uma novela ou programa de TV. Hoje, qualquer telespectador de smartphone na mão é um crítico 24 horas de tudo e de todos. Será esta a razão do crítico profissional ser hoje menos relevante ou ter sua influência frequentemente dissolvida na avalanche de opiniões em tempo real?

Aponto o fato sem qualquer prazer sádico ou pontinha de vingança em relação a críticos que eventualmente possam ter sido injustos com meu trabalho. Ao contrário, lamento a pulverização da crítica. Tenho até um sentimento que não faz parte da minha índole, a nostalgia. Sinto falta da interlocução com a crítica especializada.

É importante entender o contexto para que se dê o devido valor à qualidade das informações contidas no livro “Adeus, Controle Remoto – Uma Crônica do Fim da TV Como a Conhecemos”. Trata-se de uma compilação e realinhamento temático das críticas do jornalista Mauricio Stycer, um autêntico mico-leão grisalho. Sim, Stycer faz parte de uma espécie em extinção que ainda assiste TV com caderninho de notas e olhar afiado com a nobre missão de criticar o veículo de comunicação mais amado do Brasil.

Divulgação

Marcelo Tas: A importância da crítica de TV e o mico-leão grisalho

Capa do livro “Adeus, Controle Remoto”, de Maurício Stycer

Profissional com passagem por veículos e editorias diversas – “JB”, “Estadão”, “Lance!”, “Carta Capital”, Glamurama, “Folha”, Popzone – Stycer parece ter encontrado na crítica de TV o seu lugar. Desde 2008 dedica-se à tarefa e parece se divertir com o que faz, virtude essencial para um crítico de TV. Nas minhas três décadas do outro lado do balcão, já convivi com críticos de todos os naipes. Há gente competente e que trabalha sério, claro, muitos se virando em duplas jornadas atormentados com fechamento de colunas diárias. Há também uma turma que vai da banalidade habitual ao nariz empinado de supostos intelectuais elevados que odeiam TV, ou pelo menos dizem odiar TV, e que teimam em escrever sobre TV. Ou seja, produção infértil, inutilidade total, diálogo próximo do zero.

O respeito que tenho pela competência do Stycer me inspira a apontar algumas lacunas no livro. O prazer de assistir e ao mesmo tempo criticar a programação de TV pode ser uma casca de banana onde o autor ocasionalmente escorrega. A tese do livro explícita no subtítulo “uma crônica do fim da TV como a conhecemos” revela boa mira. Só que é nitidamente mais ambiciosa que as críticas selecionadas. Muitas vezes, Mauricio gasta seu precioso tempo mais em análises de obviedades rasas do que em debater a TV que ainda não conhecemos. O índice no final do livro mostra: enquanto o manjado “Big Brother Brasil” é citado em 10 páginas; o “Tá no Ar”, uma injeção de novas narrativas no humor da Globo, fica com apenas uma. Enquanto Faustão e Marcelo Rezende levam respectivamente cinco e três páginas, Caco Barcellos passa batido, nenhuma citação. Nada contra os dois grandes comunicadores populares, mas Caco e seu “Profissão Repórter” estão mais próximos do alinhamento do telejornalismo com os novos rumos do audiovisual.

Outra casca de banana no caminho de jornalistas que cobrem TV, e Stycer não está imune a ela, é a obsessão com os números de audiência. Trata-se, evidentemente, de assunto central para a indústria. Mas e o público leitor? Estaria mesmo interessado numa abordagem séria e técnica sobre o assunto ou a intenção é só especular sobre quem estaria supostamente sendo fritado dentro das emissoras devido aos números do Ibope para render cliques na Internet? É difícil alguém me convencer da primeira hipótese. Quando se fala em “crise na audiência das novelas”, por exemplo, quase nunca se contextualiza a pulverização da audiência pelas várias plataformas e outras telas. Ironicamente, também nunca vejo jornalistas incluírem em suas insistentes análises sobre Ibope, a mudança radical de comportamento do público, traduzida na queda de circulação dos veículos onde eles próprios escrevem.

A principal lacuna para uma abordagem consistente da ótima tese do livro é a programação infantil. A televisão das crianças, e por consequência de papais e mamães, é líder de mercado na TV por assinatura. Como falar da TV do futuro sem entender as transformações na produção audiovisual infantil, cada vez mais sofisticada e diversa? É uma ausência imperdoável em qualquer livro que se proponha a debater a televisão que virá. O desprezo pelo telespectador mirim, aliás, é uma bomba relógio da atual programação da TV aberta que pode implodir o negócio num curto horizonte de tempo. Quem vai ver TV aberta daqui a 10 anos? As atuais crianças desprezadas pela TV aberta certamente não. A absurda proibição de comerciais na programação infantil é outro grande equívoco que prejudica uma geração inteira de brasileirinhos, especialmente nas classes menos favorecidas, órfãos de boa programação na TV aberta. Um assunto tão grave quanto pouco analisado.

“Adeus, Controle Remoto” aborda bem o fenômeno das séries estrangeiras e a influência delas nos produtores brasileiros. O livro traz provocações importantes para criadores, estudantes e amantes de TV. Que fique claro: as lacunas apontadas na minha crítica não devem ser recebidas como um desestímulo à leitura. Ao contrário, as lacunas apontadas significam uma vontade de quero mais. A visão experiente e privilegiada de Mauricio Stycer e dos críticos profissionais de TV certamente tem muito a contribuir para a construção da TV brasileira que queremos e, principalmente, daquela que nem sabemos que queremos.

“Adeus, Controle Remoto”, de Maurício Stycer
Editora: Arquipélago Editorial
Lançamento: 23/05, às 19h, no Shopping Frei Caneca, em São Paulo

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