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Linda e sexy aos 65, Sonia Braga diz que voltou “vintage” a Cannes

por Bibi Toledo / Publicado em quarta-feira, 18 maio 2016 11:34 AM / / 447 views

sonia braga

Sonia Braga tinha 31 anos quando veio ao Festival de Cannes pela primeira vez. Era o início dos anos 1980 e ela apresentava “Eu Te Amo”, de Arnaldo Jabor, com Paulo Cesar Pereio. Depois voltou em mais duas ocasiões, a última delas há poucos anos, com uma versão restaurada de “O Beijo da Mulher Aranha”. “Vim com esse filme ainda inédito e depois voltei com ele já clássico. Quer dizer, eu mesma me tornei uma clássica”, brinca. “É quando você compra uma roupa e descobre que ela envelheceu porque agora é chamada de vintage.”

Nesta terça-feira (17), Sonia renasceu em Cannes aos 65 anos – lá se vão 20 desde que ela encarnou Tieta do Agreste no filme de Cacá Diegues, seu último grande trabalho como protagonista no cinema nacional. Renascer é modo de falar – bastam dois minutos com ela para perceber que o diretor Kléber Mendonça Filho tem razão quando a chama de “animal cinematográfico”.

Aplausos

Ao final da sessão de gala de “Aquarius”, o público aplaudia por sete minutos enquanto ela chamava para si a câmera do festival, mandando abraços e beijos para a lente da câmera –a imagem era projetada no telão do cinema, Sonia abraçando todo o público da sala em vez de apenas um ou dois colegas. Além da plateia, Sonia conquistou também a crítica, que já a coloca entre as favoritas ao prêmio de atuação.

Na véspera, entre outros compromissos com a imprensa internacional, ela tinha feito uma sessão de fotos para a revista francesa “Telérama”. O fotógrafo chegou mal-humorado e sem paciência. Começou a fazer as fotos, de repente parou por um minuto e falou para Kléber: “Mon dieu. Elle est magnifique” (Meu Deus, ela é magnífica).

A câmera dificilmente sai dela, e nós, como público, valorizamos cada momento de sua presença
“Variety”

Uma estrela que parece pronta para o prêmio de Cannes
“The Wrap”

Braga foi uma escolha perfeita para interpretar alguém preso ao passado e a um desejo de se manter corporalmente ativa
“The Hollywood Reporter”

Ao chegar desta vez, ela encontrou um festival bem diferente daquele de 35 anos atrás. “Hoje tem mais luzes, umas palmeiras tristíssimas que choram. Os cartazes estão aumentando, ficando mais luminosos. Da primeira vez era só uma cidadezinha à beira-mar. Eu ficava andando longe, de calça comprida. Não tinha esse tamanho todo”, conta. “Mas sempre gosto de andar na Croisette e ouvir os idiomas todos. Você sente essa confraternização do cinema.”

Lá se vão três anos desde que Kléber a convidou para “Aquarius”. Trocaram e-mails por muito tempo, e foi apenas há um ano, depois do festival do ano passado, que eles se encontraram para finalmente conversar cara a cara sobre o filme, quando Kléber decidiu ir até Nova York encontrá-la. “Eu não queria ficar no aeroporto do Recife esperando Sonia Braga com uma plaquinha com meu nome”, brinca o diretor. “Ficamos batendo papo e caminhando pela cidade. Sonia tem um desses reloginhos que mede os passos, contamos uns 18 quilômetros de caminhada.”

“Aquarius” é aplaudido após exibição em Cannes

Sensualidade

Magra e pequena pessoalmente, ela aparece ainda sexy em “Aquarius”. Clara, a crítica de música aposentada que resiste sozinha e heroicamente à construtora que quer demolir seu prédio, herdou um pouco da postura liberal e do senso crítico que Sonia mostra em seu discurso. “Houve uma simbiose entre o meu jeito de sentir e o dela. A Clara diz as coisas com a perfeição do meu sentimento. Ela tem um olho aberto, é uma pessoa que não é cega com a realidade e não se conforma quando as pessoas não entendem a posição dela”.

O diretor também vê essa identificação entre personagem e atriz. “Não sei se eu conseguiria trabalhar com uma atriz que fosse uma puta reaça, acho que não faria bem”, comenta Kléber.

Em uma cena memorável, ela chega em casa de uma festa, põe na vitrola “O Quintal do Meu Vizinho”, música pouco conhecida de Roberto Carlos, e se solta dançando pela sala. Melhor não contar mais para não estragar a surpresa, mas há uma breve cena de sexo em que ela lembra a atitude despudorada dos tempos de “Eu Te Amo” e “A Dama do Lotação”.

Como crítica de música, Clara também é a porta de entrada para a melhor trilha sonora do cinema brasileiro desde “Bye Bye Brazil”, uma lista que vai de Maria Bethânia a Alcione, de Gilberto Gil e Paulinho da Viola a Taiguara.

Premiação

Sonia não faz a modesta e diz que sim, ficará muito feliz se o filme levar algum prêmio, quem sabe a Palma de atriz. “É como entrevistar um nadador e ele dizer: ‘estou querendo muito chegar em segundo lugar’. Não é verdade. Seria lindo o Brasil ganhar, tem muitos anos que o país não ganha um prêmio. Você viu quanta gente da equipe está aqui? Poucos filmes trouxeram uma equipe tão grande pra cá”, observa, enquanto fala rodeada de Maeve Jinkings, Humberto Carrão e mais dez pessoas do elenco e da equipe.

Em tempo: na praia da Boa Viagem, o prédio no qual foi filmado “Aquarius” se chama Oceania, e é de fato o último prédio antigo da orla do Recife.

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