“Para eles, é coisa séria”, diz diretor de filme sobre Carreta Furacão

O encarregado de produção Gustavo Alves, 21, tem uma rotina pesada em Ribeirão Preto. Duas vezes durante a semana, fora aos sábados e domingos, ele se apressa para sair do serviço e vestir logo sua fantasia de marinheiro Popeye. Come ela, ao lado dos amigos Fofão, Capitão América e Mickey, o jovem sai em uma disparada insana pelas ruas da cidade, brincando e dançando atrás de um barulhento trenzinho infantil como se não houvesse amanhã.

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O encarregado de produção Gustavo Alves, 21, tem uma rotina pesada em Ribeirão Preto. Duas vezes durante a semana, fora aos sábados e domingos, ele se apressa para sair do serviço e vestir logo sua fantasia de marinheiro Popeye. Come ela, ao lado dos amigos Fofão, Capitão América e Mickey, o jovem sai em uma disparada insana pelas ruas da cidade, brincando e dançando atrás de um barulhento trenzinho infantil como se não houvesse amanhã.

Típicas do interior de São Paulo e sul de Minas, essas carreatas protagonizadas por personagens do cinema e TV viraram um fenômeno tão grande que não coube mais na internet. Após virar meme, estrelar game e até se apresentar em protesto pelo impeachment da presidente Dilma, a turma agora estará em um documentário: “Rebolão! Mas sua Irmã Gosta”, dirigido pelo paulista Gabriel Mendes Dias como trabalho de conclusão de curso em audiovisual no Senac.

A gíria usada do título, que significa “dançarino” ou alguém simplesmente “exibido”, é o ponto de partida para revelar as histórias por trás dos trenzinhos  —são vários na cidade, entre eles o famoso Carreta Furacão— e como seus integrantes se relacionam como essa “subcultura”. Segundo Dias, trata-se de uma relação tão forte e passional que chega a lembrar a de um torcedor de futebol com o seu time de coração. Exemplo: por festa, cada um deles recebe um valor irrisório, de R$ 7 a R$ 10, e há casos de quem nem cobra pelo serviço, como o de Gustavo.

Reprodução/Facebook

"Para eles, é coisa séria", diz diretor de filme sobre Carreta Furacão

O diretor Gabriel Mendes Dias, de 25 anos

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“Os meninos começam cedo e vão crescendo naquele universo. É uma questão de pertencimento. Eles se identificam tanto com aquilo, que isso deixou de ser algo infantil e turístico para se tornar algo maior”, diz  o diretor, que pretende finalizar o documentário em junho. “Para nós, pode parecer engraçado, com aquelas as fantasias toscas, mas para eles é coisa séria.”

Com pouco recurso, as gravações começaram em 2015, depois de três anos de concepção do projeto, que nasceu de uma ideia de Gabriel ao descobrir os vídeos e gifs da trupe na internet. “Ficamos em dúvida se mostraríamos só um trenzinho e só uma cidade. Escolhemos Ribeirão Preto porque é a cidade que tem um foco de trenzinhos muito grande e representava bem o fenômeno. Filmamos cinco deles. Praticamente são todos do mesmo dono, com poucas diferenças estéticas e de personagens.”

Segundo o diretor, o lançamento do documentário ainda não está fechado, mas deve acontecer, primeiro, em Ribeirão Preto, em uma sessão gratuita e exclusiva para os próprios integrantes dos trenzinhos. Falta arranjar patrocínio. Em seguida, o filme deve partir para o circuito paulista de festivais. “É uma homenagem para eles. As pessoas que trabalham neles costumam ser meninos da periferia mesmo. Assim como o funk, é um fenômeno que vem da periferia e acaba se estendendo para outras camadas. Focamos em como esses jovens podem ser configurados como uma tribo urbana.”

Divulgação

"Para eles, é coisa séria", diz diretor de filme sobre Carreta Furacão

Integrantes do trenzinho Carreta Furacão, que virou fenômeno na internet

Paixão que começa cedo

Para o Popeye Gustavo Alves, que trabalha em uma empresa de piscinas em Ribeirão Preto e já se considera veterano dos trenzinhos, virar personagem de filme é o maior reconhecimento para quem começa cedo na tarefa de divertir as crianças —depois da fama na internet, um público nem tão jovem assim.

Reprodução/Facebook

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Gustavo Alves, o Popeye do grupo Trio Barulhão

“Eu sempre gostei de trenzinho. Eu já dançava e comecei com 15 anos, primeiro em um menor. No comecinho, os moleques pensaram ‘vamos fazer algo diferente, uma coreografia, um salto. A gente chegava meia hora antes da festa e treinava um pouquinho. Hoje é só fazer um papinho que todos já sabem o que fazer”, diz o jovem, conhecido no grupo pelos passos deslizantes à lá Michael Jackson.

Segundo o jovem, é comum ver pela cidade crianças vestidas como eles, querendo seguir na “profissão”. Já icônicas, as fantasias de baixo orçamento são feitas pelos donos dos trenzinhos ou mesmos pelos próprios dançarinos, que costumam emprestá-las para colegas de outros carros. Mas, tal qual acontece nas torcidas, a relação nem sempre é das mais harmoniosas.

“Se eu falar que não tem rivalidade com os outros trenzinhos, mesmo os de mesmos donos, eu vou estar mentindo para você. Quando um trenzinho vê o outro, por exemplo, começa uma competição de dança, de som mais alto. Tudo tranquilo. Nada de pancadaria. Já teve briga uma duas, três vezes. Mas todo mundo conhece todo mundo.”

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