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Sem teles, cinema brasileiro pode viver catástrofe, diz Hector Babenco

por Bibi Toledo / Publicado em quarta-feira, 02 mar 2016 10:48 AM / / 418 views

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Para Hector Babenco, o cinema brasileiro pode viver nos próximos anos uma catástrofe anunciada. Com 13 filmes no currículo, o mais recente, “Meu Amigo Hindu”, chegando aos cinemas nesta quinta-feira (3), o diretor se refere à liminar que isenta as empresas de telefonia de recolher a Condecine, contribuição que abastece o Fundo Setorial do Audiovisual. A Ancine (Agência Nacional do Cinema) já entrou com recurso duas vezes para reverter a situação e aguarda decisão da Justiça.

“Se as teles não recolherem esse dinheiro que é o que faz caixa da Ancine, do Fundo Setorial, pode haver uma catástrofe, mas será uma catástrofe anunciada. Talvez a Ancine tenha dinheiro para um ou dois exercícios, mas talvez a tempestade seja necessária para que haja a bonança”, disse ele.

Ao lado de Wagner Moura, Fernanda Montenegro, Fábio Porchat, Fernando Meirelles e outros nomes da classe artística, Babenco participa de um abaixo-assinado que repudia o pedido das teles. As empresas de telefonia alegam não integrar a produção do audiovisual. A Ancine e a classe astístíca afirmam que o argumento não faz sentido já que as obras audiovisuais “circulam cada vez mais em celulares, tablets e computadores. Quem as distribui são justamente as teles, portanto, o recolhimento da Condecine é naturalmente inerente a este setor.

Quando Babenco menciona a bonança, ela pensa em um novo modelo de produção e distribuição que pode surgir justamente do medo da catástrofe. “Talvez seja importante que esses sinais de medo nos ajudem a pensar e formular melhor como podemos fazer cultura que se relacione mais com o público. É muito delicado o que eu to falando, mas o modelo que temos hoje ao meu entender não é o ideal. É ainda um modelo que exime o produtor de toda e qualquer responsabilidade e que a resposta do mercado não seja levada em consideração”, disse.

Dirigindo há mais de 40 anos, Babenco já viveu muitas fases do cinema, desde Embrafilmes, pornochanchadas, Era Collor até Retomada. “Já tenho certa idade e já vivi vários ciclos do cinema. Esse é mais um deles, com o qual estou convivendo com muita elegância”.

Em “Meu Amigo Hindu”, Babenco atuou como diretor e produtor, financiando o longa com economias pessoais, ajuda de amigos e com edital do polo de Paulínia. Ele garante que essa é a última vez que fará isso. “Tenho mais um filme para fazer [Cidade Maravilhosa], mas não quero mais produzir. Ou encontro alguém para fazer isso, ou o filme não verá a luz do dia. Produzir é muito penoso, arriscado e eu não tenho mais saco”.

O filme e a ideia da morte

No final de sua reflexão sobre a crise que pode se instalar no mercado cinematográfico brasileiro, Babenco retoma um pensamento: “É das cinzas que nasce a fenix”. A história mitológica permeia a vida do diretor e a de seu novo filme. O diretor argentino naturalizado brasileiro passou por um câncer nos anos 1990.

Em “Meu Amigo Hindu”, o alter ego de Babenco é vivido pelo americano Willem Dafoe. “Hoje, depois de ser muito assediado pela ideia de fim, meu único pedido à morte era que ela me deixasse fazer mais um filme. E esse é o filme que a morte me deixou fazer”, já havia dito ao UOL. Mas ao divulgar o filme em São Paulo na última semana, o diretor quis deixar claro que o filme é uma ficção com elementos da sua vida. “Eu nunca dizer com o filme ‘olha o que aconteceu comigo’. Essa coisa de auto-ajuda me irrita. Se deter ao aspecto biográfico é uma limitação ao filme”.

Chegando em cerca de 60 salas, o filme ainda tem no elenco Selton Mello, Reynaldo Gianecchini, Maria Fernanda Cândido e a mulher do diretor Bárbara Paz, vivendo ela mesma, com direito à lembrança de “Casa dos Artistas”.

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