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Ano sem favoritos coloca “O Regresso” na dianteira da corrida pelo Oscar

por Bibi Toledo / Publicado em quinta-feira, 25 fev 2016 11:17 AM / / 521 views

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Leonardo DiCaprio e Brie Larson devem ganhar os Oscars de ator e atriz neste domingo, diz a temporada de prêmios de cinema deste ano. Ambos venceram o Globo de Ouro, o prêmio do sindicato dos atores, o Critics Choice e o Bafta. Um conjunto que os deixa bem confortáveis na disputa pelo prêmio da Academia, principalmente ele, que fez a campanha mais violenta que Hollywood viu nos últimos anos para levar a estatueta, destacando como foi fazer “o filme mais difícil” da sua vida. Por isso, “O Regresso” e “O Quarto de Jack” devem sair da noite de domingo (28) com – pelo menos – um Oscar cada um. Mas esse não deve ser o único prêmio do longa de Alejandro G. Iñarritú, que tem tudo para fazer história.

Direção

Se começou a temporada como um coadjuvante na disputa de melhor diretor – principalmente porque já ganhou no ano passado com “Birdman” -, Iñarritú chegou à reta final da disputa na condição de favorito. Deu sorte. Num ano em que seus rivais eram um diretor de filme de ação (George Miller, de “Mad Max: Estrada da Fúria”; um diretor de comédias que fez um filme mais ambicioso (Adam McKay, de “A Grande Aposta”) e um diretor indie cujo trabalho é tão discreto que mal aparece (Tom McCarthy, de “Spotligh”), seu “épico da sobrevivência”, como ele vende, realizado num trabalho hercúleo, como a campanha de marketing vende, chama muito a atenção.

O mexicano ganhou o Globo de Ouro, o Bafta e foi o primeiro cineasta a fazer dobradinha dois anos seguidos no prêmio do Sindicato dos Diretores, o poderoso DGA. Suficiente para que a Academia, que já deu prêmios consecutivos para John Ford e Joseph L. Mankiewicz nos anos 1940 e 1950, decidir que “no problem” dar esse segundo Oscar para Iñarritu. Ainda mais num ano em que a falta de diversidade dos indicados virou um escândalo de grandes proporções. Na falta de uma desculpa melhor, a Academia pode ficar com um “não temos negros, mas adoramos os chicanos”. E não vai deixar de ser verdade. Se Iñarritu ganhar, vai ser o terceiro Oscar seguido para um cineasta mexicano.

Divulgação

Oscar 2016

Indicados ao Oscar 2016 de melhor atriz e melhor ator

Coadjuvantes

As disputas de coadjuvantes parecem ser mais animadas. Sylvester Stallone lidera a bolsa de apostas do lado masculino por reprisar seu Rocky Balboa em “Creed” e, a despeito de suas limitações, está muito bem no papel. Se ganhar, vai ser um daqueles momentos par entrar pra história, e o Oscar adora fazer história. Neste ano, Sly não concorreu ao prêmio do Sindicado dos Atores, o SAG, nem ao Bafta, mas levou o Globo de Ouro e o Critics’ Choice. Mesmo assim, com sua popularidade, continua como favorito. Mas é bom lembrar que a Academia tem um problema com gente popular demais. Eddie Murphy, por exemplo, tinha um SAG, prêmio do sindicato dos atores, e um Globo de Ouro. Perdeu o Oscar. Se Stallone não vencer, Mark Rylance, de “Ponte de Espiões”, que ganhou os dois prêmios aos quais ele não foi indicado, leva vantagem.

Alicia Vikander, de “A Garota Dinamarquesa”, e Kate Winslet, de “Steve Jobs”, polarizam a disputa entre as coadjuvantes femininas. A primeira ganhou o SAG e o Critics’ Choice. A segunda levou o Bafta e o Globo de Ouro. Vikander fez cinco filmes neste ano. Foi “a revelação” e nesta categoria o Oscar adora inovar (Goldie Hawn, Marisa Tomei, Anna Paquin foram surpresas em seus respectivos anos). Já Winslet, que já tem um Oscar, é uma atriz respeitada e não seria estranho vê-la novamente homenageada, mas “Steve Jobs” não foi tão bem “comprado” pela temporada e suas chances ficaram menos claras.

Divulgação

Oscar 2016

Indicados ao Oscar 2016 de melhor ator e atriz coadjuvantes

Oscar 2016

Melhor filme

Na categoria de melhor filme, as coisas estão mais confusas ainda. “Spotlight” começou a temporada em primeiro, ganhando todos os prêmios da crítica. Jornalistas adoraram se ver como mocinhos num filme, coisa realmente rara. Além disso, o tema “importante” e a realização sem firulas reforçam o tom sério do filme. O Oscar já estava praticamente certo quando “O Regresso” ganhou o Globo de Ouro. Mas o prêmio dos críticos estrangeiros já está meio desgastado enquanto prévia do resultado da Academia e ninguém levava muito a sério a ideia de dar outro Oscar para um filme dirigido pelo mesmo cineasta que ganhou no ano passado. Então, começaram a sair os indicados para os prêmios dos sindicatos e “A Grande Aposta” estava em todos eles.

Do dia para noite, o filme de Adam McKay, o último a entrar no jogo, tinha virado favorito, condição que se confirmou com a escolha do Sindicato dos Produtores, que o elegeu o melhor do ano. Desde que o Oscar aumentou o número de indicados para melhor filme, os produtores não erram uma. “Spotlight” ganhou uma sobrevida ao ser escolhido na categoria de melhor elenco do SAG. Desde que aconteceu aquela hecatombe da vitória de “Crash” no Oscar, criou-se a lenda de que o vencedor do prêmio de elenco do Sindicato dos Atores ganha a estatueta principal da Academia. Não é bem assim, mas o povo tem memória curta. E aí, quando tínhamos dois protagonistas na temporada, “O Regresso” ganha o DGA. E depois o Bafta de filme e diretor. E o fantasma do Oscar consecutivo parece não assombrar mais ninguém.

E agora?

É como se a temporada tivesse dado o aval para a Academia premiar Iñarritú e seu filme de novo. Será? A campanha está fortíssima, a votação começou na semana passada, exatamente no momento em que o filme está no auge, mas será que Hollywood não vai achar demais? Será que o quadro de votantes, que ainda não mudou apesar do anúncio da Academia de que vai diversificar seus membros, vai reeleger um diretor mexicano? Ou será que a presença de Leo DiCaprio, a maior barbada do ano, vai dar uma força para o filme? Ou ainda será que a Academia ligou o dane-se e vai comprar melhor campanha, ops, escolher o melhor filme de acordo com o que ela acha mesmo? É bom lembrar que o Globo de Ouro e o Bafta premiaram “Boyhood” no ano passado. Não tinham esse problema de repetir vencedores.

O fato é que se “Spotlight” ganhar, vão ter que dar substância a essa vitória. O filme certamente leva roteiro original, mas um melhor do ano se sustenta com só mais um Oscar? A Academia nunca achou isso muito bonito. Mas é difícil pensar numa vitória de Tom McCarthy, cujo trabalho é quase invisível. Teria Mark Ruffalo força para derrubar Stallone (ou Mark Rylance) e se eleger como coadjuvante para que o “filme do ano” tivesse pelo menos três prêmios, que parece ser o mínimo aceitável para um grande vencedor? Com “Crash” e “Argo” foi assim.  Agora, se “A Grande Aposta” ganhar, o prêmio de filme vai estar escorado num de roteiro adaptado, onde ele é favorito, e possivelmente num de montagem, que é a alma do longa. Mas essa produção pequena, essa comédia um pouco mais séria, tem perfil de Oscar? E de melhor filme?

Os três favoritos têm prós e contras. E os contras de todos são tão fortes que terminou surgindo um boato nos últimos dias: os votos vão se dividir e “O Quarto de Jack” pode se beneficiar com isso já que tem ousadia e dramaturgia “na medida certa” (ideia geral, não que reflita a opinião do autor deste texto), uma atriz garantida na premiação e, caso se precise, um prêmio extra para o roteiro, derrubando o filme de McKay, já que é baseado num livro bem querido.

Não é de todo estranho. “Carruagens de Fogo” e “Conduzindo Miss Daisy” já haviam surpreendido anos atrás, mas pode ser especulação demais. “O Regresso” tem tudo para ganhar o Oscar. Tem um tom épico, uma campanha competente, bastidores que convencem, um número de indicações recorde, o maior astro do mundo e o aval da temporada. Deve ganhar. Só não merece.

Como se constrói um favorito (ou dois)?

Mas como se chega a esse favoritismo? O que determina quem tem mais chances de de levar o troféu maior de Hollywood?

A resposta é uma só: a temporada de premiações de cinema. O Oscar nasceu como o prêmio da indústria e, com o passar dos anos, ergueu outra indústria, paralela, em torno de si mesmo. Uma indústria de críticos e profissionais de cinema com a missão de influenciar os resultados do Oscar. Pasteurizaram tanto que ficaram reféns dessa condição e vivem à sombra do prêmio que deveriam influenciar. Se um filme, um ator ou um roteiro não parece ter “perfil” de Oscar, ele passa ao largo dessa disputa. Vai pro limbo dos “filmes alternativos”, que cada vez tem menos espaços relevantes para serem prestigiados.

A temporada acontece em duas fases: primeiro, os críticos dão seu aval. Os mais tradicionais contam mais: Nova York, National Board of Review, Los Angeles. Fecham essa primeira fase o prêmio dos críticos estrangeiros em Los Angeles, o famoso Globo de Ouro, e o prêmio dos críticos na TV, o Critics’ Choice. Esses dois últimos, televisionados. Ou seja, precisam dar audiência. Ou seja, precisam levar estrelas para as cerimônias. Ou seja, precisam indicar estas estrelas.

A segunda etapa das premiações de cinema é a dos guilds, os sindicatos de cada categoria. E todo mundo tem um sindicato pra chamar de seu nos Estados Unidos: diretores, produtores, atores, montadores, roteiristas, diretores de fotografia, pessoal do som. E eles aprenderam que se criassem um prêmio seu poderiam influenciar nas escolhas do Oscar mais do que os críticos, porque, afinal, muitos deles votam no Oscar. E eles criaram seus prêmios. Vários. O dos diretores existe desde o final dos anos 1940. O dos produtores desde o fim dos 1980. O dos atores, que também virou programa de TV, desde 1994. Todos viraram as prévias mais – ou menos – confiáveis para suas respectivas categorias no Oscar.

A temporada termina com o Oscar, mas antes tem o Bafta. O Bafta era o “Oscar inglês”. Era, porque tem cada vez menos filmes britânicos na disputa. Nos últimos anos, a indústria inglesa adequou toda a programação de lançamentos dos filmes para sincronizar a paleta de indicáveis para o Bafta com a lista de elegíveis para o Oscar. Por quê? Para o prêmio se tornar mais influente na disputa do Oscar, para atrair mais estrelas para a festa, para ser um programa de TV que dê audiência. Perderam os profissionais de cinema da Grã-Bretanha.

Nessa vontade louca de ser prévia do Oscar, o Bafta, os prêmios dos sindicatos e até os prêmios dos críticos assumiram a subserviência ao que dita a Academia. Eles fingem que influenciam o Oscar e a Academia finge que acredita.

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