Novelas têm mais autores do que parece: conheça dia a dia dos colaboradores

Arquivo pessoalEquipe de "Os Dez Mandamentos": os escritores Emilio Boechat, Marcella (consultora de hebraico), Irene (pesquisadora), Alexandre Teixeira, Vivian de Oliveira, Paula Richard e Joaquim Assis

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    Novelas têm mais autores do que parece: conheça dia a dia dos colaboradoresEquipe de “Os Dez Mandamentos”: os escritores Emilio Boechat, Marcella (consultora de hebraico), Irene (pesquisadora), Alexandre Teixeira, Vivian de Oliveira, Paula Richard e Joaquim Assis

Eles são responsáveis por criar as cenas da sua novela favorita, mas escrevem praticamente no anonimato. Com um dia a dia tão pesado quanto o do autor principal, os colaboradores não só passam boa parte do tempo (incluindo fins de semana e feriados) envolvidos com a história, como precisam ficar à disposição. As demandas de trabalho não param de chegar, já que se trata de um produto diário que passa facilmente de 150 capítulos.

“Ter uma rotina é o nosso sonho, mas a gente fica em função da necessidade. Novela é um bicho doido que engole todo mundo. Em geral são umas dez horas por dia, mas pode ser que a gente trabalhe três dias seguidos e tenha um dia inteiro de folga. No final, se os filhos lembrarem o nosso nome e os amigos ainda nos cumprimentarem estamos no lucro”, brinca Paula Rachid, da equipe de “Os Dez Mandamentos”.

Isso sem contar os imprevistos, que acontecem em qualquer trabalho, mas impactam ainda mais um programa que está no ar diariamente e envolve tantas pessoas. “Em ‘Chamas da Vida’, um ator teve diverticulite, e tivemos que reescrever as cenas dele em cima da hora. Em ‘Os Dez Mandamentos’, um dos atores teve que se afastar porque o filho nasceu em Belo Horizonte! E foi na reta final, quando a gente tinha menos frente, foi uma loucura. Ninguém vai ao médico, a gente falta a aniversários ou então sai de casa com computador. Já distribuí escaleta (resumo do capítulo) de um restaurante em pleno Dia dos Namorados”, conta ela, que também escreveu em “Ribeirão do Tempo” e “Plano Alto”, ambas de Marcílio Moraes.

Diferentes métodos de trabalho

Em geral, o autor toma as principais decisões sobre a trama, faz um resumo do que vai acontecer em cada capítulo e distribui as cenas entre sua equipe. Reuniões periódicas fazem parte do processo, mas a frequência varia de acordo com o método de trabalho de cada novelista.

João Emanuel Carneiro, de “A Regra do Jogo”, centraliza bastante a produção e raramente reúne sua equipe pessoalmente. Em “Os Dez Mandamentos”, Vivian de Oliveira já comandou conversas via Skype, pois um dos roteiristas mora em São Paulo e outro passou uma temporada em Portugal. Já Rosane Svartman e Paulo Halm, de “Totalmente Demais”, escrevem num apart hotel enquanto seus colaboradores trabalham na sala ao lado.

Marcos de Paula/Estadão Conteúdo

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O escritor e roteirista Antonio Prata

Novelas têm mais autores do que parece: conheça dia a dia dos colaboradores  No time das 21h, Antonio Prata conta que a comunicação entre a equipe acontece basicamente por e-mail. “Já passei mais de um mês sem falar com o João [Emanuel Carneiro] diretamente. Ele cria muito sozinho, já aponta até os diálogos. Só de vez em quando, quando precisa de ajuda em alguma trama paralela, quando empaca, chama a gente para uma reunião, mas é raro. É uma produção industrial e solitária. Tem colaborador que vi duas vezes na minha vida”, afirma o escritor, que já colaborou com o autor em “Avenida Brasil” e estreou na função auxiliando o pai, Mario Prata, em “Bang Bang” (2005).

Cada autor também tem seu estilo no jeito de conduzir a história. “[Walther] Negrão é um autor mais das antigas, old school. É uma característica dele não planejar muito, não ter uma sinopse muito rígida, vai fazendo a novela enquanto vai ao ar. Gosta de ouvir, até para decidir os rumos da novela. A Duca Rachid e a Thelma Guedes têm sinopse, mas gostam bastante de ouvir sugestões, principalmente nas tramas que não são a principal”, compara Alessandro Marson, atualmente em “A Regra do Jogo”, mas que também já escreveu em novelas como “Cama de Gato” e “Cordel Encantado” e seriados como “Sob Nova Direção” e “Casos e Acasos”.

As trocas de informação, no entanto, são constantes entre os roteiristas, que têm sempre a sinopse como referência, mas consultam um ao outro para dados mais recentes, como o nome de alguém que apareceu apenas em um capítulo, por exemplo. E é preciso haver um consenso de que cada frase não destoe de cada personagem.

Embora o produto final seja escrito a uma dezena de mãos, Prata diz que é possível se reconhecer na novela que vai ao ar. “Sempre dá para botar um pouco da sua voz. O autor diz que o cardápio é frango com batata, aí você bota um alecrim, um molho”, compara.

Reprodução/Instagram/fabrisantiago

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Equipe de “Totalmente Demais”: os colaboradores Felipe Cabral, Claudia Sardinha, Mario Viana e Fabrício Santiago com os autores Paulo Halm (de barba) e Rosane Svartman (de jaqueta preta)

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Improvisos

Os colaboradores foram a salvação da dupla Svartman e Halm quando souberam que “Totalmente Demais” havia sido aprovada para a faixa das 19h, porque estavam completamente envolvidos com “Malhação: Sonhos”, ainda no ar. “Adorávamos as duas. Para nossa felicidade, ‘Malhação’ teve o maior ibope e foi esticada para 280 capítulos! Trouxemos o Felipe Cabral para nos ajudar. Não embaralhamos nenhuma trama”, conta Rosane, que também conta com Mário Viana, Claudia Sardinha e Fabrício Santiago.

Em televisão, os prazos normalmente já são apertados, imagine em uma novela que foi esticada e ainda ganhou continuação, como é o caso de “Os Dez Mandamentos”. Assim como os demais colaboradores da trama bíblica, Joaquim Assis vai ter apenas alguns dias de descanso antes de mergulhar na segunda temporada da história de Moisés (Guilherme Winter). Segundo ele, muita coisa já está estruturada, mas vários detalhes ainda precisam ser criados pela equipe.

“Inventar é um prazer, porque a gente vive disso, mas inventar correndo é outra coisa. Já fiz novelas que esticaram, mas com temporada é estreia mundial”, brinca. “A gente tem 24 horas para escrever. Às vezes até consigo ir ao cinema à tarde, mas o preço vai ser passar a noite em cima do computador. É uma ‘escrevidão’ (risos)”, conta o roteirista, que começou na função na década de 80, na Globo.

Sua primeira experiência na TV foi em “Roque Santeiro”, com Marcílio Moraes e Aguinaldo Silva. “Quem inventou a novela foi o Dias Gomes, mas ela ficou proibida durante dez anos, e quando foi liberada, ele não queria mais escrever. Era uma equipe bem menor. A diferença é que a gente escrevia um capítulo inteiro. E era na máquina de escrever. Quando você tinha uma ideia nova, tinha que cortar e colar com durex, depois pedir para o motociclista buscar os capítulos e levar para a emissora. O ritmo das novelas hoje também é mais ágil”, compara.

Reprodução/Instagram/ale_marson

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Os colaboradores Thereza Falcão e Alessandro Marson com o autor João Emanuel Carneiro: parte da equipe de “A Regra do Jogo”

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No ar é diferente

Assistir à novela também faz parte do ofício, já que muitas vezes as contribuições de elenco, cenografia, direção, arte, figurino e outras equipes inspiram o texto.

“No ar é muito diferente do que você imaginou. As camisetas do Romero (Alexandre Nero), por exemplo, compõem o personagem. Quando vi, pensei: ‘Legal, a gente pode começar a pedir frases também’. Foi uma surpresa legal. Em ‘Avenida Brasil’, o José de Abreu passava horas na maquiagem para ficar com os dentes podres, mas usava uma barba imensa que não deixava ver. Aí ele inventou aquela risadinha que fez o maior sucesso. Depois a gente já começou a colocar no roteiro”, diz Marson.

Embora seja o projeto de alguns, nem todo mundo tem vontade de escrever a própria novela. “O autor tem que lidar com emissora, discutir certos assuntos, e eu não tenho vocação para isso. A vantagem é ganhar mais dinheiro”, brinca Assis.

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