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“Chatô” estrear “é bom para todo mundo”, diz Ricca, falando pela 1ª vez

por Bibi Toledo / Publicado em terça-feira, 10 nov 2015 11:13 AM / / 538 views

Em meados dos anos 1990, Marco Ricca foi escolhido dentre muitos atores para viver o protagonista de “Chatô”, filme sobre o magnata Assis Chateaubriand, que finalmente deve chegar aos cinemas no dia 19 de novembro, depois de quase 20 anos do início da produção.

Com orçamento de mais de R$ 8 milhões, o filme era uma das maiores produções da época e uma dos mais desejados por qualquer ator. Havia figurinos exclusivos, estrutura ampla à disposição, os melhores profissionais envolvidos, mas “o que era para ser um presente, transformou-se em uma novela infindável”, diz Ricca, falando pela primeira vez sobre o projeto desde o início das polêmicas envolvendo o filme.

A novela a que o ator se refere diz respeito aos atrasos sofridos na produção do filme, supostamente por falta de verbas, e ao processo movido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) contra o diretor Guilherme Fontes, acusado de irregularidades nas prestações de contas e de não entregar o longa. Fontes foi condenado no final de 2014 a devolver R$ 71 milhões. Ele recorreu da decisão e aguarda julgamento.

Eu não me resguardei, eu não tinha o que falar. Não sabia o que estava acontecendo direito. Não tinha muita consciência, muita noção. Foi meio por isso, também para não ampliar a discussão. 
Marco Ricca, explicando porque não falou sobre "Chatô" antes
 

Ricca diz que preferiu não falar até agora porque não tinha o que dizer sobre o caso e não queria ampliar a discussão. “[As perguntas] eram sempre em cima desse negócio do dinheiro. A gente [os atores] não tem acesso a essas coisas. Se falasse, poderia ainda ampliar o assunto e não queria isso”, explica.

Mesmo assim, ele garante que a sensação é de felicidade por poder fechar o ciclo. “É ótimo falar sobre isso agora, porque a obra pode falar por si. Minha torcida sempre foi para que o Guilherme ajustasse essas coisas todas e lançasse o filme”, esclarece. “Isso será bom para o cinema nacional, para o Guilherme Fontes, para todo mundo”.

UOL – Como é falar de "Chatô" agora com a estreia marcada?
Marco Ricca – Essa é uma dessas aventuras que acontecem na vida da gente. Fico muito feliz que esse lançamento aconteça. É bom para todo mundo, para o Guilherme, para o cinema nacional. O filme está aí. Existe e é bom. Claro que é uma memória muito distante e por isso é até difícil falar sobre o filme, sobre as motivações de fazê-lo, criação do personagem, essas coisas que as pessoas geralmente perguntam. Mesmo assim, é muito bom falar sobre uma coisa positiva, que é o filme pronto e não mais aquela coisa que vivi durante 20 anos, a de ter que dar meu parecer sobre o que achava dessas polêmicas. Eu me neguei a falar porque eu não tenho nada a ver com isso.

Você ainda não tinha falado sobre o assunto publicamente?
Não, não rolou. Nunca fui a fim porque sempre era em cima desse negócio do dinheiro. A gente [atores] não tem acesso a essas coisas, a gente não sabe de nada. A minha torcida sempre foi para que o Guilherme ajustasse essas coisas todas e conseguisse lançar o filme. Obviamente, a torcida não é só minha. São mais de 60 atores e muitos técnicos. É bom fechar um ciclo, ver a coisa terminada, entregar o filme, ver se as pessoas vão curtir, se vão se relacionar com a história. Essa é a parte mais legal e a gente trabalha para isso.

Sempre foi uma relação muito positiva com o cinema, de estar em uma produção que eu nunca tinha participado, grandiosa, cheia de possibilidades. Eu nunca tinha participado de uma produção dessa e não voltei a participar.
Marco Ricca

Então sua intenção era se resguardar sobre esse assunto?
Eu achava que não fazia parte dessa discussão. Percebi que as pessoas tinham uma tendência a me ver como o único ator de um filme polêmico. Isso não me diz respeito. Fui lá e fiz o meu trabalho, e para mim foi um desafio lindo, eu topei fazer e toparia de novo. É um personagem encantador. Eu não me resguardei, eu não tinha o que falar. Não sabia o que estava acontecendo direito. Não tinha muita consciência, muita noção. Foi meio por isso, também para não ampliar a discussão.

Do que você se lembra da época das filmagens?
Lembro que tive toda a estrutura que precisasse para a preparação. O Guilherme e a produção dele me deram todas as possibilidades. No filme, falo inglês, alemão e tive ‘coach’ para me ajudar, conheci a casa do Chatô na Paraíba. Filmar em vários períodos foi uma dificuldade, isso me atrapalhou um pouco em vários momentos. Mesmo assim, sempre foi uma relação muito positiva com o cinema, de estar em uma produção que eu nunca tinha participado, grandiosa, cheia de possibilidades. A direção de arte era esplendorosa, o figurino foi criado exclusivamente para o filme. Eram muitos ternos sob medida. Eu nunca tinha participado de uma produção dessa e não voltei a participar. Isso foi positivo.

E um pouco antes disso, do que você se recorda? Como você foi parar na produção?
Eu lembro que tinha muita gente interessada, era um filme muito desejado. O [diretor] Murilo Salles trabalhava com o Guilherme nessa época e ele deve ter influenciado nessa escolha. Eu vinha de vários filmes, muito teatro, mas não sei exatamente por que me escolheram dentre tantos. Não vivenciei aquelas coisas de [Francis Ford] Copolla vindo para cá. Tinha lá uma notoriedade, do personagem icônico. De alguma forma, isso caiu na minha mão. O que poderia ser um presente, virou uma novela infindável. Os outros que foram preteridos devem ter falado: "ainda bem que eu saí dessa roubada".

Assista ao trailer do filme

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Imagino que tenha sido frustrante para os atores…
Ah, não só para os atores, para todo mundo. A gente gosta de concluir as coisas. Eu sou um cara que gosta muito mais do processo do que do resultado. Essa parte do lançamento do filme é a mais difícil para mim, lembrar as coisas, assistir junto com a plateia, ver as pessoas te olhando durante a sessão. Eu me ausentei muito dessa discussão financista, mas quando encontrava o Guilherme, pedia para ele lançar o filme. Eu sabia que o material estava lá, mas ele estava sempre cheio de problemas, não conseguia. Eu falava: "lança, lança, seja lá como for. Você tem que lançar". Enfim, ele fez no tempo dele. O que importante é fechar o ciclo. Nós atores continuamos trabalhando. Quem deve ter sofrido mesmo foi o Guilherme, envolto em todos os problemas, acusações. Talvez isso tenha dificultado a vida dele em vários sentidos. A gente quer achar mocinhos e vilões o tempo inteiro. Esse período de caça às bruxas deve ter sido um terror para ele.

Você já assistiu ao filme?
Sim, há duas semanas no Instituto Moreira Sales [no Rio de Janeiro], com Eliane Giardini, Marcos Oliveira. Eu gostei do filme. Claro que ali tem uma visão de cinema muito particular do Guilherme e isso é louvável. O filme não envelheceu, não. Tem uma fotografia muito dinâmica e uma narrativa muito atual e verdadeira. Você pode discordar ou não, gostar ou não.

Assim como o Paulo Betti, você também teve que regravar cenas recentemente?
Sim. Tive que fazer, não teve jeito. Não faz muito tempo. Tivemos que fazer dublagem, off dos personagens. 

Foi difícil voltar?
Nossa, muito. Tive que relembrar o sotaque. Foi um pouco difícil. O resultado de um filme é o resultado do processo do filme, da história dele. Não dá para negar a história do filme. Ele vem com esse resíduo e isso é positivo também. A gente pensa que poderia ter sido de outro jeito. Poderia, mas não foi. Essa é a história dele, assim como cada filme tem sua particularidade.

É uma sensação boa entregá-lo agora?
Principalmente bom para o Guilherme. Para nós tem esse constrangimento, entende? De ser ver depois de 20 anos. Eu já não revejo os meu filmes e é mais complicado ainda se ver depois de 20 anos. Sua cabeça mudou, sua concepção de como chegar a um personagem, uma série de coisas. Mas ele é resultado daquela época. Eu tenho que olhar para o rapaz de 30 anos que fez aquele filme ali. Não adianta cobrar de mim mesmo o que eu faria de diferente. Faria de outro jeito? Óbvio. Não tenha dúvida quanto a isso.

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