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Compra e venda de novelas movimenta mercados do Brasil, México e Turquia

por Redação / Publicado em quarta-feira, 02 set 2015 14:10 PM / / 611 views

fatmagulun

A novela “Salve Jorge” (Globo, 2012), de Gloria Perez, tanto falou da Turquia que a Band garimpou nas lindas paisagens daquele país preciosos pontos do Ibope. Após dobrar sua audiência do horário nobre com a trama turca “Mil e Uma Noites”, agora a emissora faz dobradinha com outra novela produzida na Turquia. “Fatmagül – A Força do Amor” entrou no ar segunda-feira (31). Durante duas semanas, a nova novela será exibida antes dos últimos capítulos de “Mil e Uma Noites”, cujo final acontece 15 de setembro.

“Mil e Uma Noites”, em quase seis meses no ar, levou a audiência no horário a picos de seis pontos (cada ponto equivale a 67 mil domicílios na Grande São Paulo). Diego Guebel, diretor geral de conteúdo da Band, define a experiência de exibir uma novela turca como “sensacional”, dizendo que a recepção do público foi além do esperado. “Claro que nós sabíamos do sucesso que a novela fez no mundo inteiro, mas sempre há a expectativa de como o público brasileiro, com tanto histórico em dramaturgia de altíssima qualidade e sucesso, iria recepcionar a história que oferecemos”. Para ele, a receita inclui uma história simples, de fácil compreensão, cheia de emoção, que pode ser assistida por toda a família e com boa qualidade de produção.

O diretor da Band não fala em valores; no entanto, as produções turcas formam a mais recente leva de uma onda emergente no mercado de dramaturgia – como já houve antes outras, da Ásia (Coréia do Sul) e Israel, por exemplo–, com produções de boa qualidade e excelente relação custo-benefício. A trama da Turquia também foi bem recebida em TVs do Chile e Argentina.

No entanto, diante das gigantes mundiais das telenovelas, Globo e Televisa (do México), essa onda turca terá de ganhar muito em corpo e volume para fazer mais do que espuma. E a TV da Turquia está investindo. Na próxima feira internacional de programação, o Mipcom, em outubro, em Cannes/França, o país será homenageado, e suas produtoras aproveitam para patrocinar o evento e dar forte ênfase à venda da sua dramaturgia.

As duas maiores emissoras da América Latina estão milhares de léguas à frente neste segmento. Enquanto a emissora mexicana se destaca por sua enorme quantidade de produções, a Globo também tem oferta crescente de produtos (séries e minisséries, além de novelas), mas se apresenta no mercado internacional com os mais refinados, elaborados e de maior rentabilidade. Apenas a título ilustrativo, cada capítulo de novela feito pela Globo no Brasil tem custo-padrão médio de produção local da ordem de US$ 200 mil (inclui toda infraestrutura de produção no Projac, direção, elenco etc). No mercado internacional, há novelas inteiras que podem ser compradas por valores que correspondem a menos de cinco capítulos de uma única novela da Globo.

Outras produtoras/TVs da região com destaque na exportação de telenovelas são o Cisneros (Miami), Caracol (Colômbia), TV Azteca (México) e RCN (Colômbia). Por último, vêm as produtoras argentinas – elas não vendem tanto, nem na América Latina, por conta do sotaque e humor muito locais. No entanto, foi de lá, da Telefe, que veio o sucesso “Chiquititas”, para o SBT. A emissora de Silvio Santos também tem contrato de exclusividade para a compra por aqui das novelas da Televisa até 2019.

Exportações

Com fãs no mundo todo, a líder da TV brasileira também vê o momento do mercado internacional bastante promissor para suas novelas. Além de ser muito forte na América Latina, a TV Globo faz contratos de volume com a Telefe, TV Azteca, Teledoce (Uruguai), Ecuavisa (Equador), ATV (Peru), entre outros. Em Portugal, há mais de 30 anos a Globo licencia novelas para a TV aberta SIC e também tem dois canais próprios na TV paga, o Globo Premium e o Globo Básico, ambos com novelas em suas grades. E tem presença forte nos países de língua portuguesa da África como Angola, Moçambique e Cabo Verde. “Em Angola e Moçambique, lançamos em julho nosso segundo canal pago, o Globo ON, com novelas, séries e comédias”, conta Ricardo Scalamandré, diretor de Negócios Internacionais da Globo.

Entre as novidades, Scalamandré enumera a entrada nos Estados Unidos, de três superproduções no horário nobre da MundoFox (atual MundoMax), além de novelas exibidas na Telemundo (emissora de programação hispânica). Na China, um mercado dos mais resistentes para produtos estrangeiros, foi licenciada “Lado a Lado”. Desde 2014 a Globo também vem desbravando novos mercados: vendeu seus primeiros títulos para o Paquistão, Indonésia e Filipinas.

Para a Globo, a concorrência com novos players na dramaturgia global é saudável, e a emissora acredita que se sobressai porque, além de um know how de 50 anos na área, tem os melhores talentos, além de contar boas histórias que encantam e entretêm a audiência. O diretor exemplifica: “Avenida Brasil” foi licenciada para mais de 130 países e traduzida para 19 línguas, sendo a mais nova recordista em vendas da emissora. Em seguida vêm “Caminho das Índias”, licenciada para 118 países, e depois vêm as novelas “Da Cor do Pecado” e “Escrava Isaura”, empatadas em 104.

Veja como ficou o trailer de “Avenida Brasil” em espanhol:

Trailer de “Avenida Brasil” em espanhol

O executivo da Globo não menciona valores. Mas é dado público nos balanços financeiros do Grupo que a Globo tem receitas crescentes, ano a ano, com todas suas vendas de conteúdo, sejam no Brasil ou internacionais – em 2014, a receita líquida da empresa controladora do grupo foi de R$ 11,9 bilhões. No mercado, inclusive, corre a versão de que a Globo obtém com a venda internacional de novelas receitas superiores ao faturamento de algumas emissoras abertas brasileiras.

Para o Mipcom, a Globo levará produções como a minissérie “Amores Roubados” e a comédia “Doce de Mãe”, além da série “Dupla Identidade”, já em 4K. “Dificilmente o que é sucesso local não é sucesso lá fora”, afirma Scalamandré.

Quem negociou “Chiquititas” junto à Telefe para o SBT foi a Sato Co. Ltda. O diretor geral, Nelson Sato, além de conduzir negociações de compras e vendas de produções, também representa produtoras brasileiras no exterior e trouxe para o mercado nacional muitas das mais famosas séries e minisséries asiáticas. Ele se especializou nas séries de nicho, inspiradas nos animês, além de hits como “Jaspion”, “Changeman”, National Kid”, “Topo Gigio” e  “Doraemon”. A Sato Co. também apostou na onda de dramas sul-coreanos, e trouxe para o mercado a minissérie  “Winter Sonata” (Sonata de Inverno).

Na Record, o sucesso atual de “Os Dez Mandamentos” anima a área de vendas internacionais. O diretor da área, Delmar Andrade, conta haver grande demanda por esse tipo de produto nas grades das emissoras. Ele acredita que o fato de a emissora ter se consolidado em um nicho pouco explorado – o das produções épicas – e, de consequentemente, ter virado referência nesse tipo de produção, dá um importante diferencial diante das concorrentes.

Lá fora, a Record ainda colhe os frutos do sucesso de sua versão de “A Escrava Isaura”. “Não é sem razão que nossa próxima estreia, ainda para 2015, será ‘Escrava Mãe’, novela que contará sobre a vida de Juliana, a mãe de Isaura”, diz Andrade.

As produções da Record “Essas Mulheres”, “Bicho do Mato”, “Balacobaco”, “A Lei e o Crime”, “José do Egito” e “Milagres de Jesus” já foram vendidas pela emissora para países das três Américas, Europa, África e Ásia.

Pelo SBT, a gerente internacional e de licenciamento, Carolina Scheinberg, diz que nem o momento atribulado em economia para muitos países afeta o cenário de compra e venda e novelas. “Às vezes um país está mais favorável economicamente que outro. Se um país sofre por uma crise, naturalmente irá procurar melhores negociações, mas a procura por conteúdo continua”, diz.
Em vendas, a emissora segue com títulos como “Chiquititas”, “Carrossel” e “Uma Rosa com Amor”, que tiveram ótimos índices no mercado internacional. Agora, a aposta é na atual “Cúmplices de um Resgate”.

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