No set de “Cidades de Papel”, escritor John Green reviveu medo da escola

John Green –um dos escritores mais vendidos da atualidade, autor do best-seller “A Culpa É das Estrelas”–, caminha por uma escola de ensino médio em Charlotte, na Carolina do Norte. A escola está em pleno funcionamento, e alunos ocupam os corredores, indo de uma sala de aula para a outra sem dar atenção aos equipamentos de filmagem e às dezenas de pessoas no meio do caminho, apenas fazendo questão de dizer ‘oi’ ou acenar para Green, autor e produtor executivo de “Cidades de Papel”, filme baseado em seu livro, que estreia nesta quinta (9).

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John Green –um dos escritores mais vendidos da atualidade, autor do best-seller “A Culpa É das Estrelas”–, caminha por uma escola de ensino médio em Charlotte, na Carolina do Norte. A escola está em pleno funcionamento, e alunos ocupam os corredores, indo de uma sala de aula para a outra sem dar atenção aos equipamentos de filmagem e às dezenas de pessoas no meio do caminho, apenas fazendo questão de dizer ‘oi’ ou acenar para Green, autor e produtor executivo de “Cidades de Papel”, filme baseado em seu livro, que estreia nesta quinta (9).

O local foi escolhido a dedo pelo diretor Jack Schreier e levemente modificado para reproduzir a escola onde Green estudou. Nas paredes e nos armários, cartazes anunciavam o baile de formatura que acontece na história. “Depois que o Jake Schreier leu o livro, ele descobriu quais eram os lugares que menciono, viajou para lá, e tirou fotos. É muito louco estar em uma escola que se parece com a minha e sentir que estou na nona série de novo”, conta o escritor ao UOL, sentado na sala da diretora do colégio.

“No início do Ensino Médio, eu estudei em uma escola pública. Era um péssimo aluno e não tinha notas boas. O pessoal com quem eu andava adorava causar problemas, e não foi uma experiência boa. Eu sofri bullying. Então ao estar aqui, com a sensação de estar de volta à escola, me sinto assustado. Porque os corredores e os armários da escola sempre me deram medo. É o mesmo sentimento. Eu lembro de andar pelos corredores pensando que todos estavam olhando para mim, me notando, me julgando. Continuo me sentindo assim”.

O sinal que anunciava o fim de uma aula toca, lembrando mais uma vez que estamos em uma escola em funcionamento. A diretora passa e oferece balas e chocolates. Green continua falando sobre sua adolescência: “Gosto de escrever sobre ser um adolescente porque minha adolescência foi muito difícil. Eu acho que as coisas difíceis que aconteceram comigo deixaram marcas muito importantes, porque foi a primeira vez que aconteceram. Foi a primeira vez que me apaixonei, a primeira vez que meu coração foi partido. Eu lidei com a morte de um amigo, alguém com quem eu me importava muito. Foi a primeira vez que sofri bullying e não pude correr para os professores. Porque de repente tinha que lidar com meus próprios problemas. A intensidade de viver essas coisas pela primeira vez faz com que eu volte nisso quando estou escrevendo”.

“Os leitores entendem isso”, continua. “Na verdade, é curioso que meu livro tenha vendido mais no Brasil do que em qualquer lugar do mundo. Os brasileiros entendem a história, e vivem me perguntando quando vou ao Brasil. Queria muito que tivéssemos uma pré-estreia lá”, conta o autor, antes de saber que realmente viria ao país para promover o filme.

No set de "Cidades de Papel", escritor John Green reviveu medo da escola Marcello Sá Barretto / AgNews Eu sofri bullying. Então ao estar aqui, com a sensação de estar de volta à escola, me sinto assustado. Porque os corredores e os armários da escola sempre me deram medo. É o mesmo sentimento. Eu lembro de andar pelos corredores pensando que todos estavam olhando para mim, me notando, me julgando. Continuo me sentindo assim. John Green, sobre a sensação de voltar à escola no set de “Cidades de Papel”

No set de "Cidades de Papel", escritor John Green reviveu medo da escola

Amizades

A trama de “Cidades de Papel” é descrita pelo autor como “uma mistura de comédia, romance, drama e mistério”. Nela, Cara Delevingne interpreta a incrivelmente aventureira e espontânea Margo Roth Spiegelman, que aparece no meio da noite na janela do quarto de Quentin (Nat Wolff, o Isaac de “A Culpa É das Estrelas”) e o convida para realizar um plano: se vingar de todos que a machucaram.  Quentin é secretamente apaixonado por Margo desde criança e aceita, mas depois de uma noite de aventuras, ela desaparece. O garoto acaba tendo que seguir pistas deixadas por Margo para encontrá-la, e eventualmente entendê-la. Quanto mais ele se aproxima dela, mais se distancia de quem acreditava que ela era.

Nat Wolff e Justice Smith (que interpreta Radar), se juntam a Green para continuar a conversa sobre o filme. Os três parecem amigos na escola. Riem de coisas bobas e fazem piadas com tudo para passar o tempo. “Não faz muito tempo que terminei escola” comenta Wolff, 20. “Eu e Justice ainda temos dezenove anos. Fazer parte deste filme tem sido muito divertido porque vivemos só a parte legal de ir à escola. Ficar conversando e zoando com os amigos, mas sem precisar ir à aula. É quase a escola dos sonhos”.

“Cidades de Papel” é o livro preferido do ator. Para ele, “John não escreve para crianças. Ele trata seus leitores com muito respeito, e dá esperança para eles. O livro é meu preferido porque é um mistério, um romance e um drama. E também porque há uma amizade linda entre esses três amigos”, elogia, referindo-se à amizade dos personagens Quentin, Radar e Ben (Austin Abrams).

Quando Cara Delevingne chega, acompanhada de Halston Sage (Lacey) e Jaz Sinclair (Angela), as três passam a mesma impressão de amigas inseparáveis se divertindo durante um dia no colégio. “Eu estudei em uma escola interna britânica”, comenta Delevingne, 22, usando o mesmo sotaque americano do filme. “E nunca tinha visto um armário escolar, por exemplo. Quando cheguei aqui, fugi de todos e comecei a correr pela escola. Queria encontrar a biblioteca. Eu sinto muita falta da escola. Você não percebe o quanto a escola é fácil, até que ela acaba”.

“Cidades de Papel” também é um dos livros preferidos da modelo e atriz inglesa. “A história é muito real e não pinta uma fantasia de como é crescer. Crescer dói um pouco, mas é algo lindo. É uma mistura de emoções. Assim como esse filme. Quando li o livro e depois o roteiro, me identifiquei com muita coisa. Coisas que Margo fala, eu já havia dito antes. É assustador. Ela é muito impulsiva e vive à base do instinto”.

Crescer dói

Segundo John, “Margo é um espelho de todos na história. Todos olham para Margo e tudo que acham sobre ela não tem nada a ver com Margo, e sim com eles mesmos. Esta é a experiência da Cara na vida real. Ela é uma ótima atriz. As pessoas vão querer dizer que ela não é porque vão fazer julgamenos sobre o que as modelos são e o que as modelos fazem, mas ela é muito diferente disso. É muito fácil para as pessoas enxergarem a si mesmas como indivíduos complexos e verem os outros como algo simples, como uma modelo, ou qualquer outra coisa”.

“Na escola, todos estão passando pelos mesmos problemas”, diz Delevingne. “É muito estúpido julgar as pessoas como: o atleta, a loira burra, a garota estranha. John consegue falar sobre isso”.

“Sempre falo sobre como é complicado ser você mesmo na internet”, diz Green, que tem mais de 3 milhões de seguidores no Twitter. “Você está sempre tentando se apresentar de uma forma, e acaba não permitindo que os outros conheçam outras partes de você. É muito difícil para figuras públicas. As pessoas as tratam como se não fossem reais e jogam suas próprias frustrações nelas. Querem culpar o mundo por ser injusto, e acabam atacando a Iggy Azalea, por exemplo, como eu fiz ontem”, admite.

“Eu acho que a melhor vingança é sempre o sucesso”, reflete Cara. “Eu gostava de fazer palhaçada com as pessoas, mas nunca fui à favor de vingança. Quando você é jovem, você não entende isso direito. Mas participar desse filme me fez perceber que ainda sou muito jovem. Para a minha idade, sou muito madura, e estou trabalhando, fazendo coisas maduras. Mas na verdade, somos todos tão jovens. ‘Cidades de Papel’ é sobre ser jovem. No set desse filme, sinto como se estivesse em um acampamento de verão. Acordo todos os dias com dor no estômago e no rosto, porque passo a maioria do tempo rindo, e sendo jovem”, conclui.