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Ainda minoria, mulheres ganham força por trás das câmeras da TV

por Redação / Publicado em domingo, 19 jul 2015 15:25 PM / / 805 views
  • Montagem PopzoneAinda minoria, mulheres ganham força por trás das câmeras da TVDenise Saraceni, Lilian Amarante, Amora Mautner e Júlia Jordão: diretoras têm se destacado na TV brasileira

No Brasil e no mundo, mulheres fortes têm ganhado espaço como personagens centrais de várias séries e novelas, como “Game of Thrones”, “Mad Men” e “I Love Paraisópolis”. E nos bastidores, também, apesar de o meio ser tido sempre como muito masculino.

Nos últimos anos, elas têm garantido lugar de destaque ao lado de nomes já consagrados como o de Denise Saraceni –primeira mulher a se tornar diretora de núcleo da Globo– e o de Leonor Correa, que dirigiu o “Domingão do Faustão” e “O Melhor do Brasil”. O maior sucesso recente das novelas, “Avenida Brasil” (2012), teve direção-geral de Amora Mautner, que se prepara para estrear ainda este ano a próxima trama de João Emanuel Carneiro. E em “Babilônia”, atual novela das nove da Globo, Maria de Médicis divide a direção-geral com Dennis de Carvalho.

“Está caminhando, a gente só não está lá ainda”, opina Júlia Jordão, diretora da série “O Negócio”, produção brasileira da HBO. “Nos últimos vinte anos nos Estados Unidos, houve um salto de 21 para 27% [de mulheres nos bastidores], que é pouco. Talvez seja otimismo meu, mas eu tenho a impressão de que no Brasil isso é um pouco melhor, principalmente na área de produção.”

A produção crescente da TV, fruto da Lei da TV Paga, que estabelece uma cota de produções nacionais a serem exibidas nos canais a cabo, também está exigindo uma maior profissionalização das produtoras, o que tem contribuído para o reconhecimento das mulheres no meio. “Isso é muito importante, a gente não é mais a mulherzinha do diretor”, afirma Júlia. Eliane Ferreira, diretora de conteúdo da produtora Mixer, concorda: “Havia muita essa tendência, até porque as produtoras eram produtoras familiares. Então tinha isso de a esposa ser a mulher, o marido ser o diretor e eles fazerem a produção, de longas principalmente. Agora, por conta de o mercado independente se tornar mais forte, as produtoras estão mais profissionais, a gente vê aí as grandes produtoras realmente estruturadas, somando financeiro, presidência, uma equipe trabalhando seriamente.”

Categorias técnicas têm menos mulheres

É nas categorias técnicas como edição, direção de fotografia e direção de arte, que a diferença se manifesta mais, de acordo com as mulheres ouvidas pela reportagem. Atualmente coordenadora de conteúdo do GNT, Sandra Brogioni começou sua carreira como editora, e ainda vê uma predominância masculina na área – ela nunca  trabalhou em uma equipe com mais mulheres do que homens quando exercia a função. “No começo do cinema, o filme era uma coisa física: você pegava, cortava com a tesoura, colava. Tinha essa coisa de falar que a mulher tem a mão menor, que ela é mais precisa. Mas aí começou a vir o eletrônico e criou-se isso de que mulher não entende de eletrônico, fios, cabos e sinal. Hoje há muita mulher que edita, que entende de equipamento, mas você ainda tem um predominância masculina”.

As inovações tecnológicas têm ajudado a incluir mais mulheres nessa área do audiovisual – principalmente se for considerada a brusca diminuição de peso e tamanho das câmeras. Mas ainda há muito a percorrer. Primeira mulher brasileira a se tornar diretora de fotografia, Kátia Coelho nunca encontrou barreiras na profissão, mas vê poucas colegas do sexo feminino em sua área.

“Eu tinha 17 anos quando comecei e fiquei surpresa quando fiquei sabendo que não havia mulheres na área. De lá para cá, as coisas não mudaram tanto, eu acho. Mesmo as câmeras sendo leves, eu noto que não existe um número grande de mulheres na área. Eu não entendo bem. Se essa área era vista como masculina pelo peso, hoje essa questão não. Vejo que há muitas diretoras, mas fotógrafas são poucas. O que é chato, porque quando ocorre esse tipo de coisa, é porque há alguma barreira”. Premiada no Festival de Gramado e no Kodak Vision Award – Women in Film (por “Tônica Dominante”), Kátia atualmente trabalha em um projeto da TV Câmara, em Brasília.

Olhar feminino

Ter mulheres por trás das câmeras pode trazer um olhar diferente em relação ao modo como o feminino aparece na telinha? A diretora Lilian Amarante, que durante 13 anos dirigiu o núcleo de humor e entretenimento da MTV, acredita que sim. “Não que o homem não possa produzir com sensibilidade, mas eu acho que há uma leitura feminina muito interessante que talvez esteja conseguindo criar mais empatia com o público. Esses programas com viés feminino, falando mais das questões femininas, eles fazem mais sucesso, são mais buscados pela audiência. É um olhar no qual você conhece os códigos, você conhece com intimidade”.

O que não quer dizer, claro, que as mulheres não possam trabalhar em conteúdos considerados “masculinos”. “As mulheres seriam tão sensíveis pra isso quanto pra tratar de um conteúdo masculino. Acho que a mulher sempre traz um olhar mais sensível, mais denso, às vezes mais profundo, ou mesmo delicado”, avalia Lilian, que recentemente dirigiu o talk-show “Show do Kibe”, do TBS, e a série “Lili, a Ex”, do GNT.

Ainda minoria, mulheres ganham força por trás das câmeras da TV
Rita Fonseca dirige o “Programa da Sabrina” ao lado de Cesar Barreto Filho

Rita Fonseca, diretora do “Programa da Sabrina”, da Record, pensa que ter funcionários de ambos os sexos é importante para os programas serem bem-sucedidos. “Penso que a participação feminina é tão importante como a masculina, afinal, temos na composição de audiência um número bem expressivo de mulheres, o que me faz pensar que temos que ter amostras de homens e mulheres para a concepção e realização de um bom produto. Observo que a minha equipe, por exemplo, é composta por um percentual bem expressivo de mulheres”.

Preconceitos no ambiente de trabalho

A qualidade do ambiente de trabalho também parece estar mais favorável às mulheres. Eliane Ferreira, Lilian Amarante, Rita Fonseca e Kátia Coelho contaram à reportagem que não tiveram problemas com machismo em suas trajetórias profissionais. “Sem demagogia nenhuma, despida de qualquer censura, posso afirmar que não. Trabalhei também à frente do ‘É Show’, com a Adriane Galisteu, que, já naquela época, nos idos anos 2000, tinha um perfil bem vanguardista”, contou Rita.

Lilian faz uma avaliação semelhante: “Nunca senti essa dificuldade os ambientes nos quais trabalhei. Sou jornalista por formação, fui repórter de TV antes de ser diretora. nunca senti isso de ter perdido uma oportunidade por ser mulher. Talvez eu já tenha entrado no mercado quando existia um espaço mínimo de atuação”.

O que não quer dizer, é claro, que ainda não exista preconceito no meio audiovisual. Júlia Jordão já ouviu uma “piada” desagradável de um produtor enquanto trabalhava como assistente de direção. “Obstáculo em si, de não conseguir alguma coisa por ser mulher, não tive. Mas preconceito? Muito. Inclusive do pior, que é o velado, que finge que não existe. Já ouvi de um produtor conhecido, em tom de brincadeira, que uma boa assistente de direção será sempre uma excelente assistente de direção, e que um bom assistente de direção será um grande diretor. Por mais que ele fale isso brincando, é preconceito”.

Já Sandra Brogioni contou que sabe que há problemas quando precisa ser mais assertiva em situações profissionais. “Eu trato muito com as produtoras. E graças a Deus nunca senti machismo. Mas às vezes, se eu tenho que falar mais grosso com um homem, sempre rola um pouco. você sabe que o cara vai falar aquelas coisas que a gente sempre ouve. Mas eu cheguei em um ponto da minha vida que eu penso ‘fala o que você quiser, contanto que você faça o que eu estou falando. Chega uma hora que não tem nem o que falar. Vou fazer o que? a gente sabe que fala mesmo. Basta ver as ofensas que foram dirigidas à nossa presidente: é v***, é p***, ninguém fala isso pra um homem”.

E ainda há nichos específicos dentro da TV que são mais resistentes à presença feminina, avalia a coordenadora de conteúdo, lembrando o duplo padrão que ainda existe em relação à aparência cobrada de quem está em frente às câmeras.  “Ainda existem os famosos nichos onde parece que mulher não entra, como o esporte, principalmente no futebol. Você tem duas ou três figuras femininas, mas elas precisam corresponder a um determinado padrão, enquanto os homens podem ser um mais tribufu que o outro que não tem problema, basta ele saber do que está falando. A mulher tem que entender, mas não pode ser feia para aparecer.”

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