“Sinto orgulho das ideias esquisitas”, diz diretor de “Divertida Mente”

Com feições caricaturais, 1,94 m de altura, jeito informal e talento de dublador, Pete Docter poderia ter saído de um desenho animado. Ou das animações mais emblemáticas da Pixar, as mesmas que ele dirigiu ou ajudou a criar:  "Monstros S.A.", "Up – Altas Aventuras", "Toy Story", "Wall-E" ou "Divertida Mente", que estreia nesta quinta-feira (18) nos cinemas brasileiros. Um sujeito esquisitão que deixa transparecer em seus filmes: histórias inusitadas, centradas nas relações humanas e na emoção.

por

Com feições caricaturais, 1,94 m de altura, jeito informal e talento de dublador, Pete Docter poderia ter saído de um desenho animado. Ou das animações mais emblemáticas da Pixar, as mesmas que ele dirigiu ou ajudou a criar:  "Monstros S.A.", "Up – Altas Aventuras", "Toy Story", "Wall-E" ou "Divertida Mente", que estreia nesta quinta-feira (18) nos cinemas brasileiros. Um sujeito esquisitão que deixa transparecer em seus filmes: histórias inusitadas, centradas nas relações humanas e na emoção.

"Entrar na mente humana é uma ideia estranha", diz ele, ao UOL, sobre a trama de "Divertida Mente", que tem como protagonistas as emoções de uma garota no início da adolescência. "Ou mesmo ‘Up’, voar em uma casa para a América do Sul. Não sei se há muitas pessoas que tentariam vender essa ideia [para um estúdio]. Acho que se eu fosse para Hollywood e dissesse: ‘tenho uma ideia ótima, um velho vê a mulher dele morrer, e vai fazer a casa flutuar’, eles diriam: ‘o quê? Saia daqui’", fala, aos risos.

A sensibilidade para as emoções está presente nos trabalhos de Docter, como aponta Cláudio de Oliveira, animador brasileiro que trabalhou em "Divertida Mente". "Algo que é bem peculiar a ele, e que podemos sentir em ‘Up’. ‘Divertida Mente’ é um prato cheio, preparado por um especialista no assunto, o chef Pete Docter", diz.

Docter não se faz de rogado. "Quando vejo meus filmes, as coisas das quais eu sinto mais orgulho são as ideias únicas, esquisitas e divertidas. E, mais que isso, as relações entre os personagens. Sinto que, no fim das contas, é por isso que vamos ao cinema. O que é importante para nós na vida são os relacionamentos que temos com as pessoas que amamos. E, nesse filme, pessoas de quem tivemos raiva, com quem ficamos tristes".

Frazer Harrison/Getty Images

"Sinto orgulho das ideias esquisitas", diz diretor de "Divertida Mente"

O diretor Pete Docter ao lado da filha, Elie, que inspirou o tema do filme

"Sinto orgulho das ideias esquisitas", diz diretor de "Divertida Mente"

Observador da filha

Uma das essências de "Divertida Mente" veio do dia a dia do diretor, ao observar sua filha Elie, aos 11 anos, mudando de personalidade com a chegada da adolescência. "Eu estava pensando em usar emoções como personagens porque cada personagem poderia ser bem caricatural, isso seria divertido. E, ao mesmo tempo, minha filha, que fez a voz de Elie [em ‘Up’], começou a mudar um pouco, e eu me perguntava o que se passava na cabeça dela. Essas duas coisas pareceram se encaixar bem".

Docter tem dúvidas de que Elie, que hoje tem 16 anos, tenha compreendido o quanto contribuiu para "Divertida Mente". "Eu mais observei ela do que realmente interagi. Não sei se ela mesma sabia o que estava acontecendo. Você apenas passa por aquilo e as coisas acontecem com você. Acho que uma das coisas principais de crescer é perceber que podemos controlar um pouco as emoções. Se sinto raiva, não significa que eu tenha que agir".

E Elie não se incomodou em ver sua adolescência inspirando um filme? "Eu tenho consciência do problema (risos), estou aqui falando com vocês e pensando: ‘hum, não sei o que a Elie acharia disso’. Mas acho que ela está em parte lisonjeada de que estejamos falando dela, e em parte com vergonha", diz Docter.

O começo de tudo

Esse lado emocional e a esquisitice de Docter contribuíram não só para seu filme mais recente, mas também para sua entrada no mundo da animação. "Eu ainda tenho algumas questões remanescentes por ter passado momentos difíceis na escola", contou ele em uma entrevista recente. "Acho que, até certo ponto, é por isso que estou na animação. Era tão difícil falar com outras pessoas. É muito mais fácil sentar no meu quarto e desenhar, porque também tenho algo a dizer".

Pete faz parte da Pixar desde 1990, quando ele e os amigos John Lasseter e Andrew Stanton deram início a "Toy Story", primeiro longa de animação computadorizada da história –e um sucesso de crítica e bilheteria. Lá atrás, Pete era um jovem de 22 anos, que nunca havia feito um longa-metragem, mas ajudou a criar a história e a supervisionar a animação daquele que se tornaria o primeiro filme animado a ser indicado ao Oscar de roteiro.

Vinte e cinco anos depois, aos 46, ele já tem um Oscar de melhor animação ("Up") e cinco outras indicações no currículo, é o vice-presidente de criação da Pixar e também o profissional que esteve envolvido no maior número de filmes da casa. Dos 15 longas já lançados pelo estúdio, Docter participou de dez: além de dirigir "Monstros S.A.", "Up" e "Divertida Mente", ajudou a criar as histórias de "Toy Story", "Toy Story 2" e "Wall-E"; fez storyboards para "Vida de Inseto"; emprestou a voz para personagens secundários de "Os Incríveis" e "Wall-E"; e produziu "Valente" e "Universidade Monstros".

Tudo isso ajudou a Pixar, que pertence à gigante Disney desde 2006, a lucrar mais de US$ 8,5 bilhões com bilheteria de seus filmes. Para Docter, o "culpado" pelo sucesso do estúdio é Steve Jobs, que comprou a marca em 1986, quando ainda era apenas uma empresa de computação. "Steve Jobs, que tinha um foco na tecnologia, abraçou esse estranho sonho de fazer histórias contadas através de animação computadorizada. Ele também confiou nos cineastas para comandar esse estúdio. O fato de ser John [Lasseter, um dos fundadores da Pixar] quem decide quais filmes serão feitos é muito especial, não há nenhum outro estúdio no mundo que seja comandado por um cineasta".