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Doc sobre Carlos Imperial revela gênio mentiroso que revolucionou a MPB

por Bibi Toledo / Publicado em quarta-feira, 08 abr 2015 06:01 AM / / 423 views

Ele fez os Beatles gravarem “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, em ritmo de rock. Rodou e deu entrevistas sobre seu filme baseado em um conto do italiano Pier Paolo Pasolini. Trocou tabefes ao vivo com Erasmo Carlos em um programa da Rádio Bandeirantes. E, como se não bastasse, deu em primeira mão a "notícia" de que o ator Mário Gomes estava em um hospital com uma incidental cenoura enfiada no ânus.

Famosas, algumas com status de lenda urbana, as mentiras de Carlos Imperial entraram para a história e agora viraram filme: “Eu Sou Carlos Imperial" documentário que, por uma ironia que é a cara do biografado, estreia no festival “É Tudo Verdade” no próximo domingo (12).

Cafajeste, cínico, mulherengo e marqueteiro, Carlos Eduardo da Corte Imperial ficou conhecido como apresentador de TV que fecundou a Jovem Guarda e, principalmente, como o caça-talento que descobriu Roberto Carlos, Elis Regina, Tim Maia e Wilson Simonal. Mas o filme revela que o capixaba foi muito mais do que isso.

Morto em 1992, Imperial foi ator, compositor, dramaturgo, jornalista, apresentador de TV, cineasta, político e mentor intelectual do estilo musical conhecido nos anos 1960 como “Pilantragem” — embora negasse com veemência, afinal, “intelectual não come ninguém”. Gênio e embuste, definia-se como o "Orson Welles brasileiro", um Orson pornográfico. Multimídia, também criou (verbo talvez um pouco forte para ele), inspirado em uma vinheta americana, a entonação clássica do anúncio das notas na apuração das escolas de samba, que persiste até hoje.

“Ele era tudo isso, sim, um multitalentos, mas costumo defini-lo como um grande ficcionista. Um cara que criava histórias e personagens para ele e para outros artistas”, conta ao UOL Ricardo Calil, um dos diretores do doc. “Às vezes colava, às vezes, não. Ele inventou o Roberto Carlos como cantor de bossa nova, e não deu certo. Tentou fazer da Elis Regina uma cantora de rock, também não rolou. Dando certo ou não, era um criador em todos os sentidos. Admirava muito o Colonel Tom Parker, promotor do início da carreira do Elvis, que fazia tudo o que fosse necessário para ter sucesso."

Assista ao trailer de "Eu Sou Carlos Imperial"

Desafios de montagem

Baseado na biografia “Dez ! Nota Dez ! Eu Sou Carlos Imperial”, de Denilson Monteiro, o documentário reconstroi uma trajetória que começou nos anos 1950, quando o inciante produtor cultural inventou criou o Clube do Rock, em Cocapana, na onda da brilhantina e das guitarritas de Chuck Berry. Entre cnas raras de filmes, programas de TV e  arquivo pessoal, depoimentos de nomes como Roberto, Erasmo, Toni Tornado, Eduardo Araújo, Gerson King Combo e Paulo Silvino.

Conseguir uma agenda com o “rei”, por sinal, foi o desafio número 1 da produção. Sem sucesso na empreitada, os diretores acabaram tendo de utilizar trechos da entrevista feita para o filme anterior da dupla, o documentário “Uma Noite em 67”. Para o desafio número 2, uma tarefa (ainda) mais complexa: decifrar quem era o Imperial por trás da persona pública.

Segundo os relatos do documentário, Imperial era misógino: chegou a dormir com 20 “lebres” – forma como batizava suas seguidoras– e simplesmente deserdou o filho quando descobriu que seria avô. Ao mesmo tempo, bebida era só Coca-Cola, e ele nem podia nem ouvir falar em drogas.

“Esse é o grande barato. Não dá pra colar uma etiqueta, definir se ele era liberal, conservador, de direita ou de esquerda. O fato de ele ter sido preso na ditadura militar, não por ser um cara de esquerda, mas por mandar uma foto sentado na privada para o militaresm e, anos depois, ser eleito vereador citando essa galhofa como se fosse um mérito já diz muito. Era um cara inclassificável”, resume o codiretor Ricardo Calil.

Nem tudo é verdade

Segundo os diretores, também não foi fácil escolher o que deixar de fora nos 30 anos de uma vida intensa e sempre recheada de mulheres. Boas lorotas tiveram de ser limadas na edição, principalmente as do lado dramatúrgico. “Ele montou uma peça era uma vez no Carnaval. Queria achar um travesti que tivesse biotipo de mulher, para causar confusão nos espectadores. E a gente conseguiu encontrar essa protagonista, a Claudia Celeste, que deu o depoimento. Iríamos colocar sem revelar a identidade masculina, mas acabou ficando de fora.”

Outra pegadinha, esta presente na versão final, é a história da música “A Praça”, composta por Imperial e famosa na voz de Ronnie Von.  Para torná-la sucesso, o "rei da pilantragem" inventou que ela teria sido feita por um desconhecido músico do interior mineiro. Na época, chegou até a ir à praça interiorana, para mostrar à imprensa a origem da história. Edson, o suposto compositor, é um dos entrevistados no filme.

“Ele é uma das mentiras que a gente inventou (risos)”, adianta Calil. “Tem outras, mas não posso falar agora. Vamos contando depois.”

As mentiras marqueteiras de Carlos Imperial mostradas no filme

“A Praça”
Segundo ele, a música, lançada sem muito estardalhaço, havia sido composta por um misterioso compositor do interior mineiro, que vivia pacatamente na praça tocando violão. Uma estratégia para alavancá-la nas paradas. Deu certo.
 
Domínio público x domínio Imperial
Tinha o hábito de se aproprias de músicas de domínio público e assinar como se fossem suas. Entre elas, os sucessos “Meu Limão, Meu Limoeiro”, com um pot-pourri criado por Eduardo Araújo, que se recusou a assiná-la, e “O Coelhinho”, gravada pelas irmãs Célia e Celma.

Cenoura enfiada em Mário Gomes
O boato de que o ator Mário Gomes deu entrada em um hospital do Rio no fim dos anos 1970 com uma cenoura enfiada no ânus foi plantada por Carlos Imperial no jornal “Luta Democrática”. A história teve origem em um entrevero entre os dois, após o lançamento do filme "O Sexo das Bonecas", cujo pôster trazia um desenho de Gomes travestido de mulher. Virou lenda urbana

Beatles fãs de Luiz Gonzaga
Carlos Imperial participou de uma gravação em que o grupo Renato e Seus Blue Caps apresentou uma versão roqueira e improvisada de “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga. Para promover seu programa de rádio, espalhou o boato de havia descoberto uma rara versão dos Beatles para o clássico da música brasileira.

"Mulheres, Mulheres"
Ele encontrou um jeito curioso de promover o filme, lançado em 1981. Espalhou a quatro ventos que o longa erótico era baseado em um conto do cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini. Em uma entrevista à apresentadora Marília Gabriela, disse que resolveu "mudar um pouco" a narrativa pois não conseguiria interpretar com verdade o papel homossexual do personagem da história.

Alvejado pela ditadura
Imperial chegou a ser preso durante a ditadura, depois de mandar um cartão de natal aos militares com uma foto sua sentado no vaso sanitário, reproduzindo a escultura “O Pensador”, do francês Auguste Rodin. Dizia que havia sido torturado, levado um tiro no joelho e tido dentes arrancados. Tudo mentira.

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