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Com séries em vista, Fernando Meirelles diz que está desanimado com cinema

por Redação / Publicado em sexta-feira, 17 abr 2015 12:32 PM / / 338 views

Com séries em vista, Fernando Meirelles diz que está desanimado com cinema

Fernando Meirelles nos bastidores da série “Os Experientes”

Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e uma história na tela pequena. A fórmula tem funcionado bem para o diretor Fernando Meirelles, que após o sucesso de “Felizes Para Sempre?” e a boa recepção de “Os Experientes”, já tem dois outros projetos para a TV em vista – um no Canadá, outro na Inglaterra. Sobre os detalhes, ele faz mistério, por enquanto, mas seu desânimo em relação ao mercado cinematográfico nacional não é segredo para ninguém.

Diante do resultado das últimas experiências cinematográficas de sua produtora, a O2, ele não tem planos de voltar aos longas-metragens tão cedo. Uma surpresa, se levarmos em conta que ele é responsável por “Cidade de Deus”, um dos filmes nacionais recentes que ajudaram a catapultar a imagem do cinema brasileiro no exterior.

“Fizemos filmes que considero bons e que nos pareciam de interesse do público como ‘A Busca’, ‘Xingu’ ou ‘Trash’, mas todos ficaram abaixo do piso de público previsto. Outros filmes, brasileiros ou não, têm tido o mesmo destino. Parece que acabaram-se os filmes de público médio, que no Brasil seria uns 400 mil espectadores. Estes são os que eu gostaria de fazer”, afirma o diretor, que volta feliz à tela grande se tiver em mãos um roteiro que o encante.

“Adoro ir ao cinema e adoro fazer cinema. Questões ligadas ao clima ou à crise civilizatória são o que mais anda me interessando atualmente. Mas como não caiu nada assim, estou num momento de pensar em TV mesmo”, afirma ele, que é fã da inglesa “Black Mirror” e da francesa “Les Revenants”.

Embora o público seja um fator que pese na sua decisão, Meirelles garante que estar na televisão não tem nada a ver com retorno financeiro. E explica: “por incrível que pareça”, o cinema é mais rentável que a televisão.
“Como cinema no Brasil é feito com dinheiro incentivado, mesmo que um filme não faça muito público, se o orçamento for administrado corretamente, todo mundo será remunerado, o que é justo pelo trabalho feito. Em TV, não há dinheiro a fundo perdido e o minuto produzido é muito mais barato, então a margem de lucro é igualmente menor”, conta.
O diretor lembra que a diferença de tempo entre os processos conta muito nessa matemática: o processo todo de um longa-metragem leva, no mínimo 3 anos; já uma série é feita em 6 meses. No entanto, a relação mais duradoura do espectador com a narrativa aguça a imaginação do contador de histórias.
“Já passei da idade de gastar meu tempo para ganhar dinheiro. Meu interesse é pelas possibilidades de roteiro que se abrem quando se tem 10 horas para contar uma história e não apenas uma hora e meia, pela dramaturgia possível”, afirma.

“Samba no pé” 

Meirelles não espera que “Os Experientes” tenha a mesma repercussão que “Felizes para Sempre?”, que foi exibida num horário mais cedo e teve mais divulgação na própria emissora.

“Fora que sexo era um dos temas centrais. Como bater isso? Por outro lado, apesar de menor em termos de produção, acho ‘Os Experientes’ mais original pelo tema. As histórias contadas aqui são menos percorridas e mais inesperadas, fora o elenco. Sou suspeito para dizer, mas essa série tem um charme e tanto pela sua delicadeza. Se “Felizes” foi como um carro alegórico que passou, “Experientes” é como um samba no pé, miudinho. Uma joinha”, compara.

Com quatro histórias diferentes a cada semana, a série retrata conflitos comuns a vários idosos, que, segundo ele, têm um lado mais zen de ver a vida: elas vivem no presente e não mais planejando o futuro. E o que mais o atraiu no projeto – concebido por Quico Meirelles, filho dele e também diretor geral da atração – é o fato de abordar situações pela qual todos passaremos na vida.

“Nesta idade, inexoravelmente olharemos para trás, para ver a poeira que levantamos na estrada ao caminhar e o que deixamos. Vale a pena tentarmos construir uma boa narrativa para as nossas próprias vidas, para quando olharmos para o passado, gostarmos do filme. Tenho uma teoria besta desde pequeno que é pensar que as pessoas são um pouco como vinho, algumas vão azedando ao envelhecer e outras vão ficando cada vez melhor”, analisa.

Dentre o elenco veterano da série, o cineasta conta que o mais original é o do episódio que vai ao ar nesta sexta, “Atravessadores do Samba”. Na trama, as canções dão o tom do luto de um grupo de músicos que precisa lidar com a perda de um amigo.

“Como eles tinham que tocar de verdade, precisavam ser mais músicos do que atores. Trazer a genial maluquice do Germano Mathias para a TV, a doçura do Wilson das Neves ou presença e voz incrível do Zé Maria, foi dos grandes acertos da série. O quarteto se completa com o Goulart de Andrade, que é mais ator do que músico – apesar de ser jornalista -, mas manda bem no tamborim”, diz.

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