Endividado, circuito de cinemas de arte em Salvador corre risco de extinção

DivulgaçãoFoto do interior do Cinema do Museu, que fechou as portas neste sábado (28) Salvador pode perder quatro salas de cinema nos próximos meses. O Circuito Saladearte, que opera há 15 anos na cidade e já chegou a ter oito espaços de exibição, anunciou na semana passada que pode encerrar definitivamente suas atividades por problemas financeiros. O grupo estima ter uma dívida de cerca de R$ 1 milhão.

A sala Cinema do Museu, localizada em um espaço do Museu Geológico da Bahia, funcionou até o último sábado (28), data em que vencia o contrato de aluguel . “Estamos discutindo com o museu, que pertence ao Estado, sobre formatos viáveis para o projeto”, afirma Marcelo Sá, um dos cinco proprietários da Saladearte.

Os outros espaços também podem ter o mesmo destino. Sem apoio, as duas salas do Cine Paseo devem durar mais quatro meses, segundo estimativa do grupo. O Cinema da UFBA, que funciona como projeto de extensão da Universidade Federal da Bahia e não paga aluguel, também pode deixar de funcionar. “Não paga meus custos. O ideal é uma frequência de 5.000 pessoas por semana. Hoje tenho de 2.000 a 3.000, contando todas as salas”, explica Sá.

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    Endividado, circuito de cinemas de arte em Salvador corre risco de extinção

    Foto do interior do Cinema do Museu, que fechou as portas neste sábado (28)

Salvador pode perder quatro salas de cinema nos próximos meses. O Circuito Saladearte, que opera há 15 anos na cidade e já chegou a ter oito espaços de exibição, anunciou na semana passada que pode encerrar definitivamente suas atividades por problemas financeiros. O grupo estima ter uma dívida de cerca de R$ 1 milhão.

A sala Cinema do Museu, localizada em um espaço do Museu Geológico da Bahia, funcionou até o último sábado (28), data em que vencia o contrato de aluguel . “Estamos discutindo com o museu, que pertence ao Estado, sobre formatos viáveis para o projeto”, afirma Marcelo Sá, um dos cinco proprietários da Saladearte.

Os outros espaços também podem ter o mesmo destino. Sem apoio, as duas salas do Cine Paseo devem durar mais quatro meses, segundo estimativa do grupo. O Cinema da UFBA, que funciona como projeto de extensão da Universidade Federal da Bahia e não paga aluguel, também pode deixar de funcionar. “Não paga meus custos. O ideal é uma frequência de 5.000 pessoas por semana. Hoje tenho de 2.000 a 3.000, contando todas as salas”, explica Sá.

Na última quinta-feira, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia se reuniu com a Saladearte. O grupo inscreverá um projeto de manutenção de equipamentos culturais no programa de formento Fazcultura. Também foi aberto diálogo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, responsável pelo Museu Geológico da Bahia.

“O circuito comercial é importante e atende a um determinado público, mas a Saladearte possibilita que o repertório cinematográfico oferecido ao público baiano seja mais diversificado”, afirma o secretário de Cultura da Bahia, Jorge Portugal.

“Pense em um absurdo”
A notícia do possível fechamento das salas foi recebida como uma grave perda cultural para a cidade. A Saladearte se notabilizou por exibir filmes de pouco apelo comercial e com menor poder de circulação.

“É uma notícia terrível, em uma época em que cinemas cada vez mais reproduzem um só tipo de filme, blockbusters. Perder essa sala alternativa é fatal para a cultura da cidade”, diz o cineasta Sérgio Machado.

Para Amaranta César, professora da UFRB e idealizadora do festival de cinema Cachoeira Doc, a Saladearte representa um modelo de espaço cultural cada vez mais oprimido. “É uma lástima. A Saladearte é fundamental porque permite o acesso a filmes que encontrariam pouco ou nenhum espaço de exibição em Salvador. Além disso, as salas são espaços de circulação de pessoas, de encontro, de ativação do pensamento, da sociabilidade, do afeto, coisa rara na cidade em que vivemos hoje.”

A perda na diversidade também é apontada por Cláudio Marques, cineasta e dono do Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, um dos últimos cinemas de rua de Salvador. “É uma tristeza, tanto pelo fato de que são salas de cinema que estao fechando, alguns de rua, quanto porque elas se dedicam a uma programação alternativa ao circuitão, são salas que trazem diversidade de programação.”

Na opinião de Umbelino Brasil, cineasta e professor da UFBA, trata-se de um “choque cultural”. “Atinge, especialmente, o público do circuito, aquele espectador afeiçoado ao filme de arte,  cinéfilo, por assim dizer.”

À notícia da crise, o cineasta  e produtor cultural Walter Lima reagiu com uma famosa frase de um ex-governador da Bahia. “É aquilo que dizia o Otávio Mangabeira, pense em um absurdo, na Bahia tem precedente. Eu nunca ouvi falar do fechamento de quatro salas de uma vez. Só aqui acontece.”

Memória da cidade
Embora hoje duas das quatro salas em atividade estejam localizadas em um pequeno shopping center, a Saladearte ficou conhecida por ocupar espaços como museus, teatros e centros de língua estrangeira.

Ana Rosa Marques, professora do curso de Cinema da UFRB, vê o cinema de rua como um lugar privilegiado do ponto de vista da história urbana. “Um cinema ajuda a compartilhar e a construir a memória  de uma cidade”, ela afirma. “É um lugar onde fazemos trocas culturais e simbólicas, mas, cada vez mais estamos trocando esses espaços de partilha por espaços assépticos, individualistas e de consumo desenfreado”.

Dados da Ancine mostram que entre 2009 e 2013, o número de salas de cinema em shopping centers no Brasil cresceu 36,9%. No mesmo período, o total de cinemas de rua diminuiu 15%. Salvador tem 61 salas de cinema com programação regular diária. Dessas, 51 estão em shoppings centers.

A recente ameaça de fechamento do Estação Botafogo, no Rio de Janeiro, e a crise atravessada pelo Cine Belas Artes, em São Paulo, mostram que o caso da Saladearte não é excepcional.

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Cinema da UFBA, parte do grupo Saladearte, que sofre com falta de público

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Dez anos de prejuízo
A crise da Saladearte não é nova. “Em 15 anos de funcionamento, tivemos lucro por dois ou três e passamos 10 anos no prejuízo”, revela Marcelo Sá.

Em outubro de 2013, a Saladearte  perdeu seu único apoiador, a Telefônica Vivo. Sá explica que essa não é a única causa da situação atual. “Nosso projeto só pode viver com patrocínio. Mas, ainda assim, o que tínhamos não bancava tudo. Desde sempre ficamos na expectativa de que viessem outras marcas, mas elas não vieram”, conta.

O contrato com a empresa só era suficiente para sustentar, em parte, duas das quatro salas.

Em nota, a Telefônica Vivo afirma que “a parceria com o circuito Sala de Arte foi encerrada em outubro de 2013, na época da adoção dos novos formatos de apoio à arte e à cultura”. A empresa afirma ainda que, mantém parceria com a rede Cinemark, que dá desconto em ingressos para clientes.

O auge da crise também trouxe reflexões para proprietários e frequentadores da Saladearte.

“A gente ousou fazer algo que é cultural e diferenciado”, diz Marcelo Sá. “Não é para poucos, é para muitos, mas a imprensa e nós precisamos nos aproximar mais um do outro. A massa consome o que é exibido em massa para ela. Acho que precisamos discutir essa aproximação entre cultura e mídia, e eu proponho que a própria Saladearte seja esse lugar”.

Investimento em divulgação nem sempre adianta, afirma Cláudio Marques. “Projetos como esse precisam se integrar à educação. O cinema francês faz isso, leva alunos para o cinema ao invés de gastar milhões em publicidade. Assim se forma um público habituado”, acredita.

Na opinião de Umbelino Brasil, a estrutura e horários da Saladearte podem ter contribuído para afastar novos frequentadores. “Apesar do empenho dos proprietários, as condições de exibição na maioria das vezes são precárias. Não temos uma boa projeção. Isso que ocorreu com "Birdman", e já aconteceu com outros filmes que são oferecidos em horários restritivos”.

Para Walter Lima, o preço do ingresso, que chega a R$ 29, é um empecilho. Uma saída apontada pelo cineasta é a possibilidade de buscar apoio na Ancine, o que exige, ele lembra, certas adequações. “Pede-se uma atenção especial para o cinema brasileiro. E isso é algo que a Saladearte não faz. O cineasta baiano apoia, mas reclama que não consegue colocar seus filmes nesse circuito. O cinema baiano tem que ter um tratamento diferenciado”, defende.

A discussão sobre uma Salvador sem a Saladearte, porém, Marcelo Sá prefere não ter. “Quando a gente está vendendo algo, e eu estou vendendo algo, a gente não fala do fim”, ele diz. “Quem vai falar do fim são os outros, não eu”.